Sinopse Rocco: Sufocada pelas únicas opções possíveis a uma mulher daqueles tempos, casar ou viver em um convento, a jovem Vasya decide viajar pelo mundo, desafiando sua família e os conselhos nem sempre confiáveis de um aliado sobrenatural, o poderoso Rei do Inverno. Mal sua jornada se inicia e uma sangrenta rede de intrigas a envolve, tecida pela nobreza moscovita, pelos gananciosos inimigos tártaros e, agindo nas sombras, por uma magia perigosa que esconde segredos do passado. Vasya ainda precisa resolver o complicado relacionamento com seus irmãos, lidar com o sedutor Kasyan, descobrir a identidade do misterioso fantasma da torre e, claro, decifrar os sentimentos que a unem a Morozko. Disfarçando-se de homem para sobreviver, pela primeira vez a jovem experimenta a liberdade, o reconhecimento por seus atos heroicos e as várias possibilidades de futuro numa sociedade que aprisiona em casa as mulheres de famílias ricas. Uma escolha que poderá trazer consequências desastrosas para as pessoas que ela ama e ainda lhe custar a própria vida. (Resenha: A Menina na Torre – Katherine Arden)

Opinião: O mundo real não se parece nem de longe com os mitos e tradições narrados oralmente e que compõe a vasta identidade cultural de um povo. Mesmo nascidos com inspirações em fatos ou devaneios, eles possuem asas potentes que os fazem voar para realidades talvez inalcançáveis. Assim, na Rússia arcaica e rural, a mitologia e seus contos de fadas servem para embalar os sonhos de liberdade, justificar situações e amenizar uma vida em que o branco do gelo castiga e mata. Foi nesse ambiente que descobrimos uma história original e inventiva em O Urso e o Rouxinol, e seguimos uma nova etapa da jornada da jovem Vasya em A Menina na Torre, uma obra mais encorpada e urbana.

Do pequeno povoado em que vivia, palco dos acontecimentos do livro um, a protagonista Vasya parte para enfrentar os desafios de explorar um mundo desconhecido e hostil. A trama de A Menina na Torre é mais elaborada, flerta com características do suspense, e mergulha em intrigas políticas e palacianas. Tudo alinhavado pelos seres e entidades do folclore russo que se misturam à vida e ao cotidiano dos personagens. O leitor aqui sente-se totalmente à vontade em um livro que começa precisamente pela frase que encerrou seu antecessor. A sequência foi seguida à risca e foi crescendo com o desenvolvimento de uma história mais madura.

Em A Menina na Torre conhecemos o ambiente de uma Moscou agrária, bem distante da imagem que temos hoje. O ponto central do livro é a disputa por poder que acontece em cenas de mistério em que não sabemos bem em quem confiar. Nesse ambiente vivem irmão e irmã de Vasya e é a eles que a garota vai se juntar encenando uma farsa. Em uma sociedade em que mulheres são subjugadas e não têm permissão para sequer pôr os pés fora de casa sozinhas, nossa protagonista veste-se de homem, engana a muitos e passa boa parte do livro vivendo o perigo de ser descoberta. Esse é o preço de vida pago por uma garota movida pela liberdade.

A história é repleta de mistérios, segredos e intrigas e isso é mais que o suficiente para fazer do livro uma obra superior, e complementar na mesma qualidade, ao primeiro volume. Katherine Arden soube segurar o rojão de produzir, dentro de uma trilogia, um livro dois correto, com uma história completa entre início, meio e fim, sem pontas soltas e resistindo à tentação de resultar apenas em uma obra de ligação entre primeiro e último livro. Dos personagens cativantes e bem construídos, que facilmente nos envolvem, o destaque total fica para a integração com as entidades folclóricas. A magia e fascínio que essa mistura entre mito e realidade possuem salta das páginas do livro e nos encanta a cada nova crença revelada. Ah, e sobra espaço, inclusive, para um clima de romance improvável que não cai nos clichês e que ganha uma tímida torcida dos leitores.

A realidade social de um país continental como a Rússia em tempos remotos é reconstruída de forma minuciosa por uma autora que demonstrou grande preocupação com ambientação e caracterização. Essa sociedade patriarcal, com todos os seus preconceitos e intolerâncias surge sem tom de militância. A ela se junta um rico folclore precisamente bem dosado e trabalhado. Por fim, fica nítido que há muito mais a ser contado. Sem cair explicitamente no suspense, Arden semeou frases soltas que deixam claro que existem segredos envolvendo a protagonista. O desfecho deixa o vislumbre do que será a próxima, e última, jornada. Cabe a nós aguardar para beber mais um pouco na fonte dessa que sem dúvida é uma das melhores séries de fantasia da atualidade.

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Da Autora leia também:

O Urso e o Rouxinol (#Winternight 1)

A Autora: Katherine Arden Nascida em Austin, no Texas, passou um ano do ensino médio em Rennes, França. Após ser aprovada para a Middlebury College em Vermont, ela adiou a inscrição por um ano para viver e estudar em Moscou. Na Middlebury, especializou-se em literatura francesa e russa. Depois de formada, mudou-se para Maui, Havaí, e atualmente vive em Vermont.

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Jornalista e aprendiz de serial killer. Assumidamente um bookaholic, é fã do mestre Stephen King e da literatura de horror e terror. Entre os gêneros e autores preferidos estão ficção científica, suspense, romance histórico, John Grisham, Robin Cook, Bernard Cornwell, Isaac Asimov, Philip K. Dick, Saramago, Vargas Llosa, e etc. infinitas…

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