Sinopse Rocco: O urso e o rouxinol mistura aventura, fantasia e mitologia ao acompanhar a jornada da jovem Vasya, criada, junto aos irmãos, num vilarejo próximo de uma floresta, e que cresceu ouvindo de sua ama contos e lendas sobre criaturas que vivem nas matas e que precisam receber oferendas para manter o mal adormecido em seu interior. Mas a chegada de Anna, madrasta de Vasya vinda da capital, de hábitos católicos, e de um padre ortodoxo que resolve instituir as práticas cristãs no vilarejo, provoca uma mudança na rotina da menina e abre as portas para uma terrível catástrofe. Sensível e determinada, Vasya é a única que consegue enxergar e conversar com esses seres fantásticos e torna-se a última esperança para salvar o povoado onde nasceu da destruição. (Resenha: O Urso e o Rouxinol – Katherine Arden)

Opinião: Na miscelânea de estilos e gêneros que compõe meu gosto literário, uma das coisas que me dão mais prazer são as histórias que resgatam mitos e crenças regionais e as envolvem numa trama de aventura, magia e encantamento. Cada país tem um painel mitológico popular que nem sempre é registrado pela história, mas que sobrevive na memória oral, sendo passado de geração em geração. Mesmo que os tempos modernos os enfraqueçam, eles cismam em resistir às tecnologias e avanços que colocam a crença em segundo plano.

A Rússia dos czares tem um calhamaço histórico capaz de munir qualquer bom escritor. E ao nos afastarmos de Moscou em direção ao interior, rural, agrário, de povo simples, em épocas mais remotas em que não se sonhava com nenhuma revolução vermelha, vamos encontrar uma crendice forte, povoada de seres que habitam as florestas e as casas. Pequenos deuses ou demônios, talvez espíritos, que cuidam do dia a dia e garantem prosperidade em lugares onde há invernos rigorosos capazes de fazer vítimas. As casas são protegidas pelos domovoi, espíritos guardiões que às vezes habitam os fornos e são alimentados por oferendas, pedaços de pão. Há também o vazila, que protege os rebanhos e estábulos, e inúmeras outras entidades que povoam a natureza e o imaginário das pessoas.

Essa Rússia agrária, palco de O Urso e o Rouxinol, é a terra de Vasilisa, uma jovem determinada e bem à frente dos costumes do seu tempo. Uma menina dotada do poder de enxergar e conversar com todos os espíritos que circundam as terras de seu pai. É aqui que essa garota vai enfrentar aventuras e desafios em uma trama onde a magia e a crença encontram o poder implacável da realidade. As histórias que os antigos contavam se mantém vivas às custas de poucos. Novos deuses, novas religiões, novos pregadores vão chegando e tentando impor seus costumes. A crendice perde força e os males do mundo se levantam.

As aventuras narradas em O Urso e o Rouxinol, baseadas na antiga luta de bem contra o mal, onde a morte, ou o Rei do Inverno, se aliam aos humanos contra o terrível Urso da maldade, tecem um conto de fadas russo. Nas entrelinhas enxergamos situações parecidas com o que a Europa medieval viveu nas fogueiras da purificação. Quando um novo padre chega às terras do sr. Pyotr, a crença do deus cristão é imposta à base do medo. O medo alimenta coisas ruins. O folclore perde força e quem crê é visto como uma bruxa. Os seres dependem da crença para continuar a existir. E o mal está à espreita, manipulando sentimentos, se fortalecendo no pânico, deixando vítimas pelo caminho.

De linguagem fácil e envolvente, Katherine Ardem produziu um livro encantador. É ficção para adultos voltarem a sonhar, por que a magia da fantasia nunca pode morrer. A penúria do inverno rigoroso do Norte com seus desafios é o cenário mais incomum para uma grande aventura. Esse é um ponto que vale destacar. De tudo que chegou até nós em literatura mágica, a mitologia popular russa é um achado. É algo original e contextualizado em uma história crível. Os embates que fazem a jovem Vasilisa vencer e crescer, em uma época em que mulheres eram totalmente subservientes, encontram boa sustentação em cada passagem onde o mito se mescla com o real.

O Urso e o Rouxinol é um livro sobre a importância da mitologia na sobrevivência das pessoas. A cultura popular é identidade e não pode ser enterrada sob nenhuma outra cultura. É preciso que todas convivam bem, como acontecia nos tempos que a mãe de Vasilisa ainda era viva. O Urso e o Rouxinol também é um livro sobre o protagonismo da mulher em tempos em que isso nem passava pela cabeça das pessoas. Por fim, O Urso e o Rouxinol é um livro de histórias que juntas compõe um maravilhoso panorama russo. Um conto de fadas para adultos entenderem que nunca é demais acreditar.

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A Autora: Katherine Arden Nascida em Austin, no Texas, passou um ano do ensino médio em Rennes, França. Após ser aprovada para a Middlebury College em Vermont, ela adiou a inscrição por um ano para viver e estudar em Moscou. Na Middlebury, especializou-se em literatura francesa e russa. Depois de formada, mudou-se para Maui, Havaí, e atualmente vive em Vermont.

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Jornalista e aprendiz de serial killer. Assumidamente um bookaholic, é fã do mestre Stephen King e da literatura de horror e terror. Entre os gêneros e autores preferidos estão ficção científica, suspense, romance histórico, John Grisham, Robin Cook, Bernard Cornwell, Isaac Asimov, Philip K. Dick, Saramago, Vargas Llosa, e etc. infinitas…

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