Sinopse Contexto: De 1938 a 1945, mais de dois mil padres, religiosos e seminaristas são deportados para o campo de concentração de Dachau. Reunidos em Blocks específicos – que ficarão conhecidos pelo nome “pavilhões dos padres” –, 1034 deles deixarão suas vidas ali. Mais de 70 anos depois de sua liberação, o campo de concentração de Dachau permanece o maior cemitério de padres católicos do mundo. (Resenha: O Pavilhão dos Padres – Guillaume Zeller)

Opinião: Foram 2.579 sacerdotes, religiosos e seminaristas católicos, de vários cantos da Europa dominada pelo nazismo, presos no campo de concentração de Dachau no período de 1938 a 1945. As barbaridades dos nazistas contra judeus, ciganos e todos os que eram considerados indignos ou dispensáveis em sua noção de mundo são amplamente conhecidas tanto pelos estudos nas escolas e faculdades quanto por filmes, livros e peças teatrais. A perseguição sofrida pela classe religiosa, contudo, é pouco mencionada e, talvez, totalmente desconhecida do grande público.

Há uma percepção de que a Igreja Católica se não se levantou aos gritos contra o III Reich, tampouco sofreu as consequências de seus atos. O jornalista francês Guillaume Zeller lança luz sobre o campo de concentração de Dachau, palco de barbaridades praticadas contra padres católicos, além de alguns pastores e missionários, para mostrar que de fato não havia limites para a máquina de absurdos do regime alemão. O Pavilhão dos Padres, publicado no Brasil pela editora Contexto, traz cenas chocantes para assombrar ainda mais nossa percepção do período mais funesto da história da humanidade.

“O horror segue competindo com o absurdo”.

Com uma narrativa que segue bem o tom objetivo e de fácil leitura do jornalismo, O Pavilhão dos Padres faz a cronologia do campo de Dachau mostrando como foi desenhada a ideia, alinhavada através de negociações que envolveram o Vaticano, de reunir todos os religiosos presos em um único local. Mas é no relato do dia a dia que se desenrolam cenas que mesclam horror e fé.

Para além da vida consagrada, os religiosos de Dachau eram humanos como quaisquer outros. Nesse sentido, eles não estavam imunes a sentimentos tão comuns e distintos como a caridade, o desprendimento para com o próximo, a mesquinhez, a raiva… Em um ambiente em que os limites da sanidade eram colocados à prova a todo momento, atitudes poucos cristãs se mesclavam com atos de grandiosidade. Saímos da cena em que um seminarista, tuberculoso, é ordenado com a cerimônia completa à qual o rito pedia, para experimentos médicos onde religiosos eram usados como cobaias, contaminados com fleimão ou malária, por exemplo.

Duas características fazem a diferença para a qualidade da obra de Zeller: a riqueza da pesquisa e os relatos de sobreviventes. A primeira delas proporcionou reconstituições bem detalhadas de episódios e rotina do campo, e ele consegue fazer dos leitores testemunhas de cada acontecimento. É como se tivéssemos pequenas janelas em que cada uma retrata uma cena. Já os relatos de sobreviventes trazem, logicamente, toda a carga emocional de quem viveu o horror. Chama a atenção, em muitos casos, a forma crua com que se referem a sofrimentos testemunhados ou sentidos na própria pele.

O Pavilhão dos Padres é um memorial às vítimas religiosas do nazismo e evidencia, mais uma vez, que ainda há muito o que se conhecer desse período. Incrivelmente, apesar de toda a dor que as páginas carregam, a obra se encerra deixando lições e exemplos, sendo “a capacidade humana de perdoar um dos frutos mais nobres da experiência dos sacerdotes” a ser assimilado por nós, décadas depois.

Avaliação: 

 

O Autor: Guillaume Zeller é jornalista, formado em História e Comunicação na Sciences Po. É diretor no Canal+, rede de televisão francesa, e foi diretor na iTélé, também um canal de televisão da Franç, além de redator-chefe na DirectMatin.fr. É autor de Oran, 5 juillet 1962, sobre a guerra na Argélia, e coautor de Um prête à la guerre.

Compartilhar
Artigo anteriorResenha: Volta Para Casa – Harlan Coben
Próximo artigoRobin Cook
Jornalista e aprendiz de serial killer. Assumidamente um bookaholic, é fã do mestre Stephen King e da literatura de horror e terror. Entre os gêneros e autores preferidos estão ficção científica, suspense, romance histórico, John Grisham, Robin Cook, Bernard Cornwell, Isaac Asimov, Philip K. Dick, Saramago, Vargas Llosa, e etc. infinitas…

Deixe uma resposta