Sinopse Planeta: Em um futuro próximo, as mulheres desenvolvem um estranho poder: elas se tornam capazes de eletrocutar outras pessoas, infligindo dores terríveis… até a morte. De repente, os homens se dão conta de que não estão mais no controle do mundo. (Resenha: O Poder – Naomi Alderman)

Opinião: Seria extremamente cômodo e simplista falar de O Poder como um manifesto feminista. Entretanto, enveredar por esse caminho é desmerecer a genialidade e a coragem de Naomi Alderman em produzir uma história perspicaz, perturbadora e com boas chances de provocar polêmicas. A distopia – e são raras as obras que de fato merecem tal classificação nessa banalização do gênero que vemos atualmente, encara o mundo sob a pessimista perspectiva de sucumbirmos às tentações do poder, de fazer as coisas simplesmente “porque podemos”.

No futuro imaginado por Naomi, cinco mil anos após um evento chamado de “cataclismo”, as mulheres ganharam um misterioso poder, a trama. Isso lhes confere a possibilidade de eletrocutar as pessoas. A sociedade, portanto, começa a se inverter, com as mulheres assumindo a liderança. Em linhas gerais e de forma fácil de se explicar, O Poder mostra uma sociedade idêntica à que vivemos hoje, com a diferença de que o comando agora está nas mãos das mulheres. E essa mudança subverte absolutamente tudo: a religião, que passa a enxergar Deus como uma figura feminina; o exército, formado somente por mulheres; países governados e com estrutura administrativa toda feminina. E os homens? A eles cabe o papel de “sexo frágil”. Eles passam a sentir na pele tudo aquilo que as mulheres vivenciaram desde que nasceram.

A subversão dessa ordem e tudo o que dela deriva, contudo, traz críticas ácidas e é aí que Naomi dá sua cartada de mestre e vai além do básico. A partir do momento em que as mulheres assumem o comando, a sedução do poder é mais tentadora do que buscar apenas a melhoria da sociedade. Naomi refuta a ideia de que com as mulheres o mundo seria mais justo e igualitário para mostrar que antes do gênero, existe a natureza humana com suas fraquezas. O poder, portanto, muda o equilíbrio da balança e gera situações extremamente semelhantes às que aconteciam na sociedade dominada pelos homens.

Se por um lado O Poder escancara para os homens todos os absurdos que eles praticavam contra às mulheres, por outro, mostra que a construção da sociedade ideal não depende de gênero, porque o poder acaba ditando, influenciando e sendo fundamental nessa construção. Seja homem ou mulher, quando se detém poder, se esquece do próximo ou dos valores mais básicos. A mensagem da obra é chocante, pessimista e desanimadora e, infelizmente, parece conter boas doses de verdade. Basta olhar para o mundo ao nosso redor para concluirmos que no fim das contas a ambição de estar acima dos outros não tem nada a ver com gênero, classe social, opção sexual ou raça…. É algo da natureza humana.

Por trás da ideia genial, Naomi tropeçou um pouco na forma como a história foi escrita. Apesar de bem construído, o livro é longo demais e muitos trechos ficaram cansativos e repetitivos. Partindo de um começo promissor e bem envolvente, a obra avança rumo à metade girando em seus próprios eixos e ficando muito repetitiva para aterrissar em um final razoável. Mesmo assim, o enredo, as críticas e a forma como a ideia foi apresentada acabam compensando esses pequenos pontos que dizem mais respeito ao meu gosto pessoal. Os quatro personagens (três mulheres e um homem) são apresentados em altos e baixos e por vezes de forma muito superficial. Mas todos estão ali a serviço da trama, o verdadeiro protagonista da obra é “o poder” e suas seduções.

Aos que buscam uma verdadeira distopia construída em uma metáfora genial do nosso mundo, a leitura de O Poder vai não só agradar como mexer com a forma como você encara tudo à sua volta. É um livro para ser lido uma, duas, três vezes de modo a assimilarmos toda a mensagem que ele contém!

Avaliação:

 

A Autora: Naomi Alderman nasceu em Londres, na Inglaterra. É escritora, colunista da seção de tecnologia do The Guardian e roteirista de games. Com O poder, eleito pelo The New York Times um dos 10 melhores livros de 2017, recebeu o prestigiado Bailey’s de ficção. É formada em Escrita Criativa pela Universidade de East Anglie, além de Filosofia, Política e Economia pela Lincoln College, em Oxford. Sua estreia na literatura veio com Disobedience, controverso romance sobre uma lésbica de origem judaica que deu origem ao filme homônimo, com Rachel Weisz e Rachel McAdams no elenco. Participou do programa Rolex Mentor and Protégé Arts Initiative, tendo como mentora e orientadora Margaret Atwood (O conto da aia).

1 COMENTÁRIO

  1. Oi Jeff! Adorei a resenha e pela forma como criticou vejo semelhanças com “A Revolução dos Bichos”. O Poder já está na minha lista de leituras.

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