Sinopse Companhia das Letras: Em 2016, encerrou-se um longo ciclo de ilusões na política brasileira. O colapso do “presidencialismo de cooptação” implementado pelos governos petistas desnudou a fragilidade dos avanços sociais e econômicos até então celebrados como inéditos na história do país. Se a revelação da dura realidade da corrupção generalizada injetou lucidez no debate político, também abriu espaço para o ressurgimento de velhos paradigmas populistas, à esquerda e à direita, que envenenam o debate público. A crise de representatividade e a estagnação econômica apontam para a necessidade de uma profunda renovação nos métodos de fazer política, que passam por transformações éticas, culturais e sociais. Em Crise e reinvenção da política no Brasil, Fernando Henrique Cardoso rastreia as raízes dos problemas atuais do Brasil para propor, com a costumeira agudeza e honestidade intelectual, uma nova agenda para o país. (Resenha: Crise e Reinvenção da Política no Brasil – Fernando Henrique Cardoso)

Opinião: Muito se fala sobre a tal crise política e econômica pela qual passa o Brasil, mas o pouco que se lê sobre o tema é superficial e não abrange todas as nuances, fatores, contextos e conjunturas que nos trouxeram a esse cenário caótico e de falta de rumos. O desmanche das conquistas econômicas, feitas a duras penas lá na década de 1990 sob o comando inicial de Itamar Franco, e o descrédito recorde da classe política impulsionado pelos incontáveis escândalos de corrupção e pela falta de sintonia dessa mesma classe com a sociedade brasileira, não são problemas pontuais que surgiram do dia para a noite. Existe na história recente do Brasil uma montanha-russa de altos e baixos em que decisões assertivas foram postergadas e decisões erradas foram tomadas. Tudo isso se acumulou e, aliado a outros fatores, inclusive externos, culminou nesse 2018 turbulento cujas eleições representam uma fraquíssima luz no fim de um longo túnel.

Com uma lucidez rara em políticos brasileiros, Fernando Henrique Cardoso se afasta do lado partidário e se aproxima do lado pensador (que lhe cai melhor) para dissecar em uma análise fria os descaminhos percorridos pelo Brasil. Crise e Reinvenção da Política no Brasil é um livro atual e datado, escrito sob medida para estes meses confusos em que temos uma delicada escolha de rumos a tomar. Através de uma análise cronológica, que não se limita a determinados governos e sim a todo o período pós-ditadura, FHC apresenta sua visão de erros e acertos, apontando os principais pontos que descarrilaram o aparente sucesso para o qual o país caminhava.

Sem se eximir de culpas, embora ignore inúmeros equívocos cometidos por seu partido, o PSDB, Fernando Henrique faz um retrospecto do país desde a redemocratização, com análises do que mudou e de como os auspícios promissores se dissolveram, principalmente sob o comando de Dilma Rousseff. Erros na condução econômica, projetos de cooptação de partidos políticos, descolamento da classe política das transformações e aspirações da sociedade, incapacidade dos partidos de entender e apresentar soluções para aquilo que a população deseja. Todos esses temas são dissecados com observações históricas e com pontuações otimistas de que nem tudo está perdido.

Os leitores que acompanham mais atentamente o cenário político brasileiro não vão encontrar muitas novidades nas páginas de Crise e Reinvenção da Política no Brasil. Há na obra uma espécie de compilado de tudo que vem povoando nosso noticiário nos anos recentes. A diferença, e qualidade, é que o livro traz uma contextualização e uma visão mais abrangentes da situação. Pesa aqui, logicamente, a experiência de alguém que por oito anos governou o país e conviveu com boa parte dos nomes que ainda figuram como protagonistas de nossa política. As soluções apresentadas para boa parte de nossos problemas também não são novas, mas é necessário sempre reafirmá-las, pois constituem algumas das saídas para recuperarmos o caminho do crescimento.

O tom de oposição aos governos petistas se faz presente, mas não aparece de forma gratuita. Os erros cometidos são inegáveis para qualquer um que pretenda fazer uma análise fria de nossa situação. Nesse ponto, contudo, falta um mea culpa de que boa parte da mensagem apresentada pelo autor não foi compreendida por seus próprios correligionários dentro de seu partido. Ora, se erros pesados houveram por parte dos governos Lula e Dilma, faltou também um pulso firme oposicionista pelo lado do próprio FHC e dos principais nomes tucanos.

A leitura de Crise e Reinvenção da Política no Brasil contribui muito para entendermos a extensão de tudo o que acontece no Brasil hoje. Independente da inclinação política do leitor, se embrenhar nestas páginas é sair da caixinha do “lado de cá e lado de lá” para percorrer o verdadeiro universo político brasileiro, onde na maioria das vezes só impera um lado. Fernando Henrique Cardoso é um dos melhores pensadores para nos guiar nesse labirinto e, mesmo aos que não o reconhecem como liderança importante, vale conhecer sua análise e perceber que muito do que é por ele apontado representa, de fato, um rumo para a reconstrução do Brasil. Lúcido, analítico, atual e importante!

Avaliação:

 

O Autor: Fernando Henrique Cardoso nasceu no Rio de Janeiro em 1931. Sociólogo formado pela Universidade de São Paulo, foi professor catedrático de ciência política e é hoje professor emérito da USP. Ensinou também nas universidades de Santiago, Stanford, Berkeley, Cambridge, Paris-Nanterre e Collège de France. Foi senador pelo estado de São Paulo e, entre 1992 e 1994, ministro das Relações Exteriores e da Fazenda. Foi presidente do Brasil entre 1995 e 2002. É presidente de honra do PSDB, partido que ajudou a fundar.

Compartilhar
Artigo anteriorResenha: O Poder – Naomi Alderman
Próximo artigoResenha: As Elizas – Sara Shepard
Jornalista e aprendiz de serial killer. Assumidamente um bookaholic, é fã do mestre Stephen King e da literatura de horror e terror. Entre os gêneros e autores preferidos estão ficção científica, suspense, romance histórico, John Grisham, Robin Cook, Bernard Cornwell, Isaac Asimov, Philip K. Dick, Saramago, Vargas Llosa, e etc. infinitas…

Deixe uma resposta