Sinopse Suma: Sozinha no mundo, Eleanor fica encantada ao receber uma carta do dr. Montague convidando-a para passar um tempo na Casa da Colina, um local conhecido por suas manifestações fantasmagóricas. O mesmo convite é feito a Theodora, uma alma artística e “sensitiva”, e a Luke, o herdeiro da mansão. Mas o que começa como uma exploração bem-humorada de um mito inocente se transforma em uma viagem para os piores pesadelos de seus moradores. Com o tempo, fica cada vez mais claro que a vida, e a sanidade, de todos está em risco. (Resenha: A Assombração da Casa da Colina – Shirley Jackson)

Opinião: Considerada uma das melhores histórias de terror do século XX, A Assombração da Casa da Colina faz jus a todo o rol de elogios que carrega. Seu parágrafo de abertura, apontado, entre outros por Stephen King, como o melhor início de livro já escrito, dá o tom envolvente de uma narrativa poderosa que coloca o leitor no centro dos acontecimentos e o faz mergulhar numa espiral de loucura sem limites até um desfecho surpreendente, dúbio e marcante.

Grande protagonista da obra, a Casa da Colina, mencionada de forma insistente pelos personagens a todo momento, é quase uma presença tão palpável quanto as pessoas que nela se hospedam. Construída de forma doentia, nada nela é simétrico, nada soa normal, seus cômodos são estranhos e em certos momentos ela parece um labirinto. Contudo, em nenhum momento se fala em fantasmas habitando o lugar. Temos assim a primeira grande característica do livro que certamente vai decepcionar e gerar críticas de diversos leitores. A Assombração da Casa da Colina não é um livro sobre espíritos ou entidades sobrenaturais que “tocam o terror” pra gelar a espinha e fazer perder o sono. O horror aqui está na insanidade que a casa provoca ou apenas evidencia.

Embora quatro personagens se hospedem na Casa da Colina para estudar sua fama de mal-assombrada, fica claro desde o princípio que a segunda grande protagonista da obra é Eleanor. E aí temos interessantes semelhanças entre sua construção e a da personagem Merricat, de Sempre Vivemos no Castelo, o que nos leva a entender melhor o universo de horror psicológico de Shirley Jackson e toda a genialidade que lhe é atribuída.

Eleanor domina grande parte das cenas do livro já desde o começo. As sequências que mostram seu deslocamento até a Casa da Colina, embora soem deslocadas ou sem sentido, são o prelúdio de tudo o que está por vir e acabam se explicando no decorrer da história e colaborando no entendimento total da trama, lá nos capítulos finais. Ou seja, nada está descrito por acaso em A Assombração da Casa da Colina. Tudo ali, até os diálogos mais infantis, cumpre um propósito dentro da insanidade que é o lugar. E prestando atenção em seu comportamento, enxergamos uma personagem instável, solitária, egocêntrica, invejosa e extremamente egoísta. Suas mudanças de humor, seus pensamentos a respeito dos companheiros, suas atitudes…. Há um conjunto de fraquezas humanas que a compõe. Tanto Eleanor quanto Merricat são personagens que se fecham em seus mundinhos perfeitos particulares e enxergam tudo ao redor dentro do que interessa a elas mesmas. Não há o outro se no outro elas não enxergarem sua satisfação realizada.

Quando alguém como Eleanor adentra a Casa da Colina, ela se torna a presa perfeita do local. Aqui está o terror magistralmente construído por mestre Shirley. A casa vai fisgar Eleanor em sua paranoia porque sua história de vida a atrai. Imaginemos a Casa da Colina como uma grande sala de espelhos que reflete a todo momento as profundezas de cada pessoa que ali se perde. Assim, a personagem instável se entrega até perceber, tarde demais, que ao tomar sua maior decisão poderia ter sido usada pela casa. Uma simples marionete a realizar os caprichos de um organismo vivo, cruel e manipulador chamado Casa da Colina.

Shirley Jackson em A Assombração da Casa da Colina não escreveu uma história de terror para nos tirar o sono. A pegada aqui é uma alucinante condução pela insanidade. No fim, ao completar o ciclo iniciado no primeiro parágrafo, a única certeza que fica é que por mais influenciados que possamos ser, a escolha de se entregar à Casa da Colina é unicamente nossa. São nossas fraquezas que assombram e alimentam a Casa da Colina.

Avaliação:

 

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Sempre Vivemos no Castelo

A Autora: Shirley Jackson nasceu em San Francisco, Califórnia, em 1916, e faleceu em 1965. Uma das principais autoras americanas do século XX, influenciou escritores como Stephen King, Donna Tartt, Neil Gaiman e Richard Matheson. Sua obra é leitura obrigatória em diversas escolas dos Estados Unidos, e seu trabalho é aclamado por público e crítica.

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