Sinopse Global: Ao longo de sua vida, Lima Barreto construiu uma obra literária profunda e variada. Foi autor de contos, romances e crônicas de jornal. Sua produção no campo dos contos tornou-o inegavelmente respeitado. E o melhor desta parte da produção ficcional do escritor encontra-se presente neste “Melhores contos” Lima Barreto, que sai agora em nova edição, em formato pocket. A seleção e o prefácio são de autoria do jornalista e crítico literário Francisco de Assis Barbosa, um dos primeiros intelectuais que se dedicou a escrever uma biografia do escritor. (Resenha: Melhores Contos – Lima Barreto)

Opinião: Na pequena cidade de Tubiacanga tudo andava no ritmo lento de sempre, até que a chegada de um forasteiro misterioso aguçou a curiosidade dos locais. No vai e vem dos boatos, o farmacêutico foi quem não só descobriu quem era o dito cujo como teve acesso ao seu segredo maior. Nesse meio tempo, sepulturas foram profanadas e uma grande confusão se armou. Os habitantes, pacatos, conservadores e respeitosos para com o próximo, mesmo sendo este já falecido, exigiam explicações e respeito. Isso à luz dos olhos dos demais. Mas quando a noite cai, a ambição fala mais alto e não há bom senso, moral ou bom costume que se mantenha de pé.

Esse pequeno e extremamente bem resumido parágrafo, do conto “A Nova Califórnia”, dá o tom do quão envolvente, curiosa e interessante é a produção de contos de Afonso Henriques de Lima Barreto, um de nossos melhores e mais injustiçados escritores. Por muito tempo legado a segundo plano, ou mesmo ignorado, Lima Barreto é um dos mais perspicazes, bem-humorados e críticos autores brasileiros. E mais de um século depois, sua obra permanece absurdamente atual, bem como seus diagnósticos sobre o comportamento dos tipos sociais brasileiros.

Reunidos em uma edição de bolso pela Global Editora, quatorze dos mais instigantes contos do autor estão disponíveis para o público em Melhores Contos: Lima Barreto. Pelas histórias, passeamos por características marcantes do brasileiro dos fins do século XIX e início do século XX e que ainda permanecem enraizadas em nossa cultura, mesmo que de forma mais discreta. Malandragem, hipocrisia, pedantismo, bajulação ao estrangeiro, costumes…. Cada conto traz uma breve visão de uma situação com um tom crítico inteligente, além de alguns ares de troça e personagens caricatos.

Sagaz observador da sociedade brasileira, especialmente no Rio de Janeiro, onde viveu, Lima Barreto faz humor com o sujeito que galga altas posições governamentais ao fingir dominar um idioma que ninguém ao redor conhece; mostra o deslumbre equivocado de uma dona de pensão com um casal inglês, superior aos demais por causa de sua nacionalidade; percorre os contratempos amorosos e de vida de diferentes mulheres de distintas classes sociais; se embrenha no jogo de interesses da mulher que não admite um pretendente taxista; e critica o saber acadêmico que se encerra nas quatro paredes da academia e faz da cultura motivo para distinção social. Mais que contos, são retratos reais de um Brasil que adentrava o último século do milênio ainda agarrado a modismos e hábitos coloniais, preconceituosos e atrasados.

Deliciosamente recheados de ironia e sarcasmo, com críticas explícitas e implícitas, Melhores Contos é um livro para ser lido de uma só vez. A linguagem fácil, menos presa aos estilos formais e um tanto chatos que ainda dominavam a literatura brasileira da época, contribui para tornar a leitura ágil e envolvente. Só não se espante se perceber que muito pouco ou quase nada mudou de lá pra cá.

Avaliação: 

 

 

O Autor: Lima Barreto Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 – Rio de Janeiro, 1 de novembro de 1922), melhor conhecido como Lima Barreto, foi um jornalista e um dos mais importantes escritores libertários brasileiros.

Era filho de João Henriques de Lima Barreto (mulato nascido escravo) e de Amália Augusta (filha de escrava agregada da família Pereira Carvalho). O seu pai foi tipógrafo. Aprendeu a profissão no Imperial Instituto Artístico, que imprimia o famoso periódico “A Semana Ilustrada”. A sua mãe foi educada com esmero, sendo professora da 1ª a 4ª série. Ela morreu cedo e João Henriques trabalhou muito para sustentar os quatro filhos do casal. João Henriques era monarquista, ligado ao Visconde de Ouro Preto, padrinho do futuro escritor. Talvez as lembranças saudosistas do fim do período imperial no Brasil, bem como suas remotas lembranças da Abolição da Escravatura na infância tenham vindo a exercer influência sobre a visão crítica de Lima Barreto sobre o regime republicano.

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Jornalista e aprendiz de serial killer. Assumidamente um bookaholic, é fã do mestre Stephen King e da literatura de horror e terror. Entre os gêneros e autores preferidos estão ficção científica, suspense, romance histórico, John Grisham, Robin Cook, Bernard Cornwell, Isaac Asimov, Philip K. Dick, Saramago, Vargas Llosa, e etc. infinitas…

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