Sinopse Suma: Em 1589, o padre e demonologista Peter Binsfeld fez a ligação de cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente responsável por invocar o mal nas pessoas. É a partir daí que Raphael Montes cria sete histórias situadas em um vilarejo isolado, apresentando a lenta degradação dos moradores do lugar, e pouco a pouco o próprio vilarejo vai sendo dizimado, maculado pela neve e pela fome. (Resenha: O Vilarejo – Raphael Montes)

Opinião: Muito já se especulou sobre onde reside a maldade no ser humano. Seríamos essencialmente maus por natureza, precisando apenas de um sopro a despertar nosso lado mais sombrio? Ou estamos sujeitos a interferências externas, sobrenaturais, capazes de mudar nossas atitudes e nos levar a praticar atos abomináveis contra o próximo? Tais questionamentos são constantemente explorados pela literatura de terror, em especial, e de forma perturbadora, pelo mestre do gênero, Stephen King. Cá nas terras tupiniquins, de escassa tradição literária no gênero, Raphael Montes se debruçou sobre as mais íntimas motivações humanas e produziu uma série de contos interligados que mexem com nossos mais primitivos instintos.

Em O Vilarejo, pequena pérola literária nacional, Montes passeia pelos sete pecados capitais em sete curtas histórias que tanto podem ser lidas de forma independente quanto na ordem apresentada no livro. Em essência, todas possuem um mesmo eixo narrativo e em alguns pontos umas complementam as outras. Em comum, temos pessoas levadas a situações de insanidade total em que as máscaras sociais não conseguem mais se sustentar, e o verdadeiro eu de cada um é exposto nos mínimos detalhes em atitudes aterrorizantes.

Confrontados com características pessoais que lhes são caras, tais como a ganância, a inveja, a luxúria, a gula, a soberba, a ira ou a preguiça, os personagens de O Vilarejo deixam claro que a maldade é intrínseca ao ser humano. Independente do estímulo de algo externo, todos sempre estiveram propensos a avançar o sinal do coletivo em nome do individual. Quando colocados frente a situações extremas, em que a tensão é levada ao último grau, sucumbem e se entregam a atitudes chocantes que vão causar ao leitor asco, pavor, náusea, mas que não são nem um pouco sobrenaturais. Pelo contrário, são reações bem humanas.

A narrativa curta, objetiva e sem muitos floreis de Raphael Montes, dá aos contos um tom de histórias macabras para se ouvir numa noite de chuva à luz de uma lanterna. Entre surpresas e perturbações estomacais, elas estimulam a nos perguntarmos quão monstruosas poderiam ser nossas reações se estivéssemos em situações semelhantes. E não se assustem se perceberem que fariam exatamente as mesmas coisas que alguns desses tão verossímeis humanos habitantes do perdido vilarejo.

Avaliação: 3 Estrelas

 

O Autor: Raphael Montes nasceu no Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1990. Advogado e escritor, teve contos publicados em diversas antologias de mistério, inclusive na Playboy, na antologia “Rio Noir” e na prestigiada revista americana Ellery Queen’s Mystery Magazine. Aos 20 anos, impressionou a crítica e público com Suicidas, um suspense policial finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do prestigiado Prêmio São Paulo de Literatura 2013.

Todos os seus livros tiveram os direitos de adaptação vendidos para o cinema e estão em produção. Entre abril/2015 e fevereiro/2018, Raphael assinou uma coluna semanal em O Globo. Atualmente, o escritor apresenta o “Trilha de Letras”, um programa semanal sobre literatura na TV Brasil. Além disso, escreve roteiros para cinema e TV.

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