Sinopse Intrínseca: Macabro, perturbador e emocionante, As coisas que perdemos no fogo reúne contos que usam o medo e o terror para explorar várias dimensões da vida contemporânea. Em um primeiro olhar, as doze narrativas do livro parecem surreais. No entanto, depois de poucas frases, elas se mostram estranhamente familiares: é o cotidiano transformado em pesadelo.

Opinião: Esqueça a Argentina romântica e seus cenários turísticos. As Coisas que Perdemos no Fogo vai te levar para longe do glamour e mostrar uma outra face do país. A face do dia-a-dia de quem constrói sua vida enfrentando os obstáculos latino-americanos que vez ou outra surgem no caminho do desenvolvimento. Este é um livro de terror para ser lido com atenção, pois há várias camadas de significado por trás de cada história. Ao final, vamos perceber o quanto a realidade pode ser mais assustadora que qualquer ameaça sobrenatural.

As Coisas que Perdemos no Fogo é uma coletânea de doze contos de terror que, em síntese, mostram o lado obscuro de uma Argentina assolada pela ditadura militar. São histórias de um sobrenatural diferente do que estamos acostumados na literatura latino-americana, mas que têm o pé fincado nessa nossa realidade de lutas sociais, agravos econômicos, governos autoritários e crendices populares. “Nada de Carne sobre Nós”, por exemplo, é um conto que fala da obsessão de uma mulher com uma caveira encontrada em um monte de lixo e que lá no fundo versa sobre ossadas humanas, heranças de tempos sombrios; “A Casa de Adela”, meu preferido, narra o misterioso sumiço de uma menina, numa clara alusão ao roubo de crianças perpetrado pela ditadura argentina.

Em maior ou menor grau, todas as histórias de Mariana Enriquez exploram os medos presentes na rotina do argentino. Maquiados genialmente de tramas de terror, os contos percorrem a Argentina marginal, de subúrbios e favelas, os pedaços esquecidos de bairros simples povoados por pessoas comuns que vivem à mercê de acontecimentos insólitos, perpetrados não tanto pelo sobrenatural, mas pelo humano.

As doze histórias se sucedem numa linguagem que em nenhum momento perde o ritmo. A qualidade dos contos é crescente e é difícil apontar algum que saia da média, alta, da obra. Soma-se a isso uma ambientação cinematográfica que nos faz personagens das histórias, tão bem são as descrições de lugares, costumes e características. E as personagens, femininas, fortes, determinadas são um toque a mais, aquela “cereja do bolo” para dar o requinte final num livro minuciosamente escrito.

A crítica social se une a crendices, o ar de lenda urbana se mescla aos delírios históricos, e o resultado é uma das mais gratificantes obras de terror que tive o prazer de ler. Um horror palpável nas entrelinhas, e que faz sentido para nós brasileiros com nossos próprios fantasmas. Um salve para a literatura argentina que não se cansa de nos surpreender, e uma enorme expectativa de que a editora Intrínseca publique os demais livros de Mariana Enriquez.

“Tenho que cavar, com uma pá, com as mãos, como os cães, que sempre encontram os ossos, que sempre sabem onde os esconderam, onde os deixaram esquecidos”.

Avaliação: 5 Estrelas

A Autora: Mariana Enriquez nasceu em 1973 em Buenos Aires. É jornalista, subeditora do jornal Página/12 e professora. Autora aclamada pela crítica, publicou, além de As Coisas Que Perdemos No Fogo, outros sete livros.

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Jornalista e aprendiz de serial killer. Assumidamente um bookaholic, é fã do mestre Stephen King e da literatura de horror e terror. Entre os gêneros e autores preferidos estão ficção científica, suspense, romance histórico, John Grisham, Robin Cook, Bernard Cornwell, Isaac Asimov, Philip K. Dick, Saramago, Vargas Llosa, e etc. infinitas…

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