Sinopse Aleph: Andrew Harlan é um Eterno: membro de uma organização que monitora e controla o Tempo. Um Técnico que lida diariamente com o destino de bilhões de pessoas no mundo inteiro: sua função é iniciar Mudanças de Realidade, ou seja, alterar o curso da História. Condicionado por um treinamento rigoroso e por uma rígida autodisciplina, Harlan aprendeu a deixar as emoções de lado na hora de fazer seu trabalho. Tudo vai bem até o dia em que ele conhece a atraente Noÿs Lambent, uma mulher que abala suas estruturas e faz com que passe a rever seus conceitos, em nome de algo tão antigo quanto o próprio tempo: o amor. Agora ele terá de arriscar tudo – não apenas seu emprego, mas sua vida, a de Noÿs e até mesmo o curso da História. (Resenha: O Fim da Eternidade – Isaac Asimov)

Opinião: A história da humanidade registra a evolução do pensamento e da capacidade inventiva na busca por medir e domar o tempo. A medição que começou com relógios de sol e foi avançando até os modernos e hiper precisos relógios atômicos deu certo. O controle esbarrou no implacável avanço dos ponteiros e nunca conseguimos influenciar nos rumos do tempo. Seja de Cronos ou Kairós, o tempo é indomável e segue seu fluxo independente dos caprichos humanos. Descarregamos, então, nossos sonhos (frustrações?) na literatura ou no cinema imaginando soluções e possibilidades que nos permitiriam neutralizar o cair das areias na ampulheta ou quem sabe fazer retroceder as horas, anos, eras…

Das mais bem produzidas, inteligentes e bem amarradas tramas da ficção científica sobre viagens no tempo, O Fim da Eternidade, do Bom Doutor Asimov, é o livro-base para nos embrenharmos nesse fascínio que o controle do tempo exerce sobre a humanidade. Mas a genialidade de Asimov não se contentou apenas em viajar no tempo, como H.G. Wells fez de forma inovadora e clássica em A Máquina do Tempo. Em O Fim da Eternidade temos o homem controlando e alterando o tempo em suas diversas épocas de forma a garantir que a ordem das coisas nunca saia dos eixos.

Conhecidos pela alcunha de Eternos, os protagonistas de O Fim da Eternidade, são pessoas escolhidas a dedo para dedicarem suas vidas ao monitoramento do passar do tempo. Alterando-o sempre que acharem necessário. Comparo parte da ideia-base da obra com uma famosa problemática: um trem com duzentas pessoas pode descarrilhar e matar a todas, mas há a opção de desviarmos ele, atropelar e matar dez pessoas, e salvar as duzentas. O que é certo fazer? Assim, cabe aos Eternos, em determinados momentos, escolher o que acham mais correto alterar de forma a evitar maiores danos futuros e garantir que o mundo siga seu curso sem atropelos.

A grande questão discutida ao todo momento em formas explícitas e implícitas é se vale a pena interferir em qualquer coisa para garantir que a humanidade seja salva. É viável e mesmo justo querer que o mundo seja totalmente e sempre perfeito? Cabe à tecnologia se aperfeiçoar a ponto de permitir que evitemos todo e qualquer tipo de erro ou essa evolução toda que parece certa pode significar atraso? Sendo você um Eterno, voltaria no ano de 1914 de forma a mudar um fato e evitar que a Primeira Guerra Mundial acontecesse? Mesmo que a mudança desse fato acarretasse a morte de milhares de pessoas. Vale a pena sacrificar milhares para poupar milhões? No fundo, as reflexões por trás de O Fim da Eternidade versam exatamente sobre isso, principalmente nas sequências finais, que trazem um dos melhores desfechos que já tive oportunidade de ler na scifi.

Escrito na década de 1950, quando o mundo ainda catava os cacos da Segunda Grande Guerra e a tensão EUA X URSS dava seus primeiros e acelerados passos, O Fim da Eternidade sofreu claramente a influência de todo esse período. A “eternidade” humana ainda não se via ameaçada de forma aterradora pelo perigo atômico, mesmo com os episódios ocorridos no Japão, mas muito das possibilidades imaginadas no livro teriam total poder de sedução se pensarmos no avanço da ameaça nuclear nos posteriores anos de Guerra Fria.

Para além da genial trama sobre o tempo, O Fim da Eternidade se desenvolve em cima de uma fraqueza humana, capaz de mudar inabaláveis convicções: o amor. Toda a reflexão e questionamentos que farão o protagonista Harlan mudar suas visões nascem a partir do momento em que ele se apaixona por uma mulher fadada a desaparecer nas alterações do tempo. Para salvar seu amor, ele se lança em uma corrida no tempo e vai percebendo que talvez garantir a perfeição de tudo pode não ser a melhor solução.

Livro para ser devorado em questão de horas, O Fim da Eternidade é um profundo manifesto em favor do poder de decisão das pessoas. A eternidade não precisa ser garantida ao custo de mudanças no curso do tempo. Necessário sempre e sempre manter o livre-arbítrio de cada pessoa para que, com erros e acertos, geração a geração aprenda e evolua (ou não) com suas próprias atitudes.

Avaliação: 5 Estrelas

O Autor: Isaac Asimov nasceu em Petrovich, Rússia, em 1920. Naturalizou-se norte-americano em 1928. O Bom Doutor, como era carinhosamente chamado pelos fãs, escreveu e editou mais de 500 livros, entre os quais a série Fundação e as histórias de robôs que inspiraram filmes como O Homem Bicentenário e Eu, Robô. Além de mundialmente famosas obras de ficção científica, Asimov alcançou sucesso também com tramas de detetive e mistério, enciclopédias, livros didáticos, textos autobiográficos e uma impressionante lista de trabalhos sobre aspectos variados da ciência.

Morreu na cidade de Nova York, em 1992, por falência múltipla de órgãos provocada pelo vírus da Aids, contraído em uma transfusão de sangue realizada durante uma cirurgia em 1983.

Compartilhar
Artigo anteriorResenha: O Voo da Libélula – Michel Bussi
Próximo artigoResenha: Coração de Aço (Os Executores #1) – Brandon Sanderson
Jornalista e aprendiz de serial killer. Assumidamente um bookaholic, é fã do mestre Stephen King e da literatura de horror e terror. Entre os gêneros e autores preferidos estão ficção científica, suspense, romance histórico, John Grisham, Robin Cook, Bernard Cornwell, Isaac Asimov, Philip K. Dick, Saramago, Vargas Llosa, e etc. infinitas…

Deixe uma resposta