Sinopse Estação Liberdade: A obra questiona e confronta o conceito de normalidade da sociedade atual e nos deixa com uma simples pergunta: até onde você iria para ser você mesmo? A protagonista e narradora é Natsuki. Ela poderia passar por uma criança comum, com devaneios infantis, como a crença em dons mágicos, seres extraterrestres e bruxas. Mas, conhecendo sua história, questionamo-nos se esses não são, na verdade, mecanismos de fuga que a menina desenvolveu para lidar com uma sociedade opressora e, mais especificamente, com traumas desencadeados por abusos de diversas ordens. (Resenha: Terráqueos – Sayaka Murata)
Opinião: Um livro perturbador. Talvez essa seja a melhor forma de resumir e descrever a experiência de leitura. É uma narrativa que incomoda, provoca e, em muitos momentos, causa até repulsa.
Terráqueos acompanha Natsuki, que também é a narradora. A gente segue a trajetória dela desde a infância até a vida adulta, sempre a partir da forma como ela enxerga o mundo. E é justamente aí que está o ponto central do livro.
Desde criança, Natsuki vive uma realidade marcada por traumas. Ela sofre abuso e, quando tenta contar para a família, não é levada a sério. Ao contrário, cresce dentro de um ambiente familiar disfuncional, em que a mãe a trata com desprezo, como se ela fosse inútil.
A partir disso, ela se desenvolve como alguém profundamente afetada por essas experiências. Ela passa a se enxergar como um “produto defeituoso”, alguém que não se encaixa no funcionamento do mundo.
E é nesse ponto que a narrativa ganha uma camada muito interessante. Para lidar com essa realidade, Natsuki cria um universo próprio, um refúgio. Nesse mundo, ela não pertence à Terra. Ela se vê como alguém de fora, uma espécie de alienígena que não faz parte das engrenagens que movem a sociedade.
Na visão dela, o mundo funciona como uma grande fábrica, em que as pessoas precisam trabalhar, cumprir papéis sociais e se reproduzir. E tudo o que ela queria era conseguir ser uma “boa peça” dentro dessa engrenagem, algo que ela sente que nunca será.
“Será que algum dia poderia apenas viver e não sobreviver?”
A história vai escalonando à medida que Natsuki cresce. Ainda na infância, ela desenvolve uma relação com o primo que já traz elementos desconfortáveis e que a família não sabe lidar. Esses episódios ajudam a reforçar o isolamento dela e a dificuldade de inserção social.
Na vida adulta, isso se intensifica. Ela entra em um casamento completamente fora do padrão, com comportamentos que fogem de qualquer expectativa social. E é nesse momento que o livro mergulha de vez no absurdo.
A sequência final é extremamente visceral, incômoda e difícil de digerir. É o tipo de leitura que causa mal-estar, que tira o leitor do lugar confortável e que fica na cabeça depois que termina.
Ao mesmo tempo, por trás desse choque, existe uma proposta muito clara da autora. O livro questiona papéis sociais, especialmente o da mulher. Existe uma crítica forte à ideia de que a mulher precisa casar, ter filhos e cumprir um roteiro pré-estabelecido.
Também há uma reflexão sobre o que acontece quando alguém não se encaixa nesse sistema. Quando alguém não consegue ser essa “peça funcional”, o que sobra? Marginalização, isolamento e, nesse caso, uma ruptura completa com a realidade.
No fim das contas, Terráqueos é uma obra difícil, desconfortável e extremamente provocativa. Não é um livro para qualquer momento, nem para qualquer leitor. Mas é uma leitura que mexe, que incomoda e que levanta discussões importantes.
Através do bizarro e do extremo, Sayaka Murata constrói uma crítica potente à sociedade, às normas e às expectativas que muitas vezes são impostas às pessoas. É uma leitura que vale muito a pena, justamente por ser tão perturbadora.
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A Autora: Sayaka Murata nasceu em 1979 em Inzai, na província de Chiba, próxima a Tóquio. Fã de mangás e ficção científica, desde a infância já escrevia histórias. Seu romance de estreia Querida Konbini (Estação Liberdade, 2018) ― que já vendeu mais de 1 milhão de exemplares em todo o mundo ― rendeu-lhe o prêmio Akutagawa em 2016. Antes, havia recebido os prêmios Gunzo e Noma, em 2003 e 2009, ambos voltados para novos escritores, e o prêmio Yukio Mishima, em 2013. Os temas abordados por ela costumam se relacionar à não conformidade dentro da sociedade japonesa nas relações de gênero, trabalho e na sexualidade, muitas vezes incorporando aspectos distópicos ou de horror. Seu conto “Um casamento limpo”, sobre um casal que deseja conceber um filho sem fazer sexo, foi publicado na Granta Vol. 13: Traição, também em tradução de Rita Kohl.






