Sinopse Dublinense: Hans é um ex-policial vivendo numa casa de repouso em Joanesburgo, assombrado pelas lembranças dos crimes que cometeu a serviço do governo. Já Zoe, enfermeira designada para cuidar dele, é uma mulher que cresceu enfrentando a desigualdade e o racismo, consequências da violência política de seu país. (Resenha: Eles Te Pegaram Também – Futhi Ntshingila)

Opinião: Eles te Pegaram Também é uma excelente história, e também uma obra bastante complexa para se abarcar em todas as suas camadas num texto curto como essa resenha. É um livro que mistura memória, drama, história e reflexão moral, mergulhando em momentos decisivos da trajetória da África do Sul.

A narrativa de Eles te Pegaram Também é construída a partir de dois personagens centrais: um ex-militar branco, já idoso, que atuou ativamente no regime do apartheid, e sua cuidadora, uma enfermeira negra chamada Zoe. A partir da relação entre os dois, a autora costura diferentes tempos históricos e diferentes experiências de vida.

Hans, esse militar, vive agora os últimos anos de sua vida em uma casa de repouso. Aos poucos, ele revisita as memórias da própria trajetória. Memórias que se confundem com capítulos sombrios da história sul-africana. Ele foi uma figura ligada ao aparato repressivo do apartheid e carrega uma vida construída sobre o preconceito racial e a violência institucional.

Ao longo da carreira, participou de atos de brutalidade, tortura e opressão, sobretudo contra a população negra. Ou seja: ele não é apenas alguém que viveu aquele tempo histórico, mas alguém que fez parte ativa dele.

Agora, no fim da vida, a impressão que o livro passa é de que existe nele algum tipo de arrependimento, uma tentativa de redenção. Mas essa é uma questão que a autora trata de forma aberta. Não me parece que ela queira oferecer uma resposta fechada ou convencer o leitor facilmente dessa redenção.

O que ela faz é mostrar um homem no crepúsculo da vida: amargurado, talvez arrependido, talvez apenas assombrado pelo peso do que foi e do que fez.

E é justamente nesse momento que entra Zoe, a enfermeira negra que passa a cuidar dele com atenção, carinho e humanidade. Há algo profundamente simbólico nisso: um homem branco que ajudou a sustentar um sistema de opressão racial agora depende do cuidado de uma mulher negra, descendente daqueles que sofreram sob esse mesmo sistema.

Enquanto cuida dele, Zoe compartilha histórias de sua família, especialmente das mulheres de sua linhagem. Por meio dessas narrativas, o livro também nos conduz por diferentes episódios da história da África do Sul, mostrando dores, resistências, perdas e superações vividas pela população negra ao longo do século XX.

Essas histórias criam um contraste poderoso com o passado de Hans. Quanto mais Zoe revela as memórias da sua família, mais ele sente a necessidade de confessar as próprias brutalidades. Ele vive esse conflito interno: quer contar tudo, quer colocar para fora, mas ao mesmo tempo teme esse momento e parece desejar morrer antes de enfrentá-lo.

É como se a confissão pudesse representar alguma forma de alívio. Talvez não exatamente perdão, talvez não absolvição, mas algum tipo de enfrentamento final da própria consciência.

Nesse sentido, os dois protagonistas funcionam também como representações simbólicas: de um lado, o branco opressor; de outro, a negra oprimida. Mas a autora não os reduz a isso. Ela mostra como a história se moveu, como os papéis sociais se transformaram e como os caminhos se cruzam em outro tempo histórico.

Eles te Pegaram Também é um livro de leitura fluida e rápida, mas o conteúdo é pesado, triste e profundamente ligado à realidade histórica.

Talvez um dos pontos mais fortes da obra seja justamente a reflexão moral que ela provoca: mesmo quando alguém pratica maldades e atrocidades ao longo da vida sem ser punido formalmente, pode existir um acerto de contas interior. A consciência pesa. A memória cobra. A angústia chega.

Eles te Pegaram Também é uma leitura muito interessante e que vale a pena ser feita. Não apenas pela história que conta, mas pela oportunidade de mergulhar na trajetória de um país riquíssimo culturalmente, marcado por sofrimento e superação, tudo isso pelo olhar de uma autora sul-africana.

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A Autora: Futhi Ntshingila nasceu em Pietermaritzburg, na África do Sul, em 1974, e vive em Pretória. Jornalista de formação e mestra em Resolução de Conflitos, ela busca colocar em prática as suas ideias no escritório da presidência do seu país. Entre suas publicações, estão os romances Shameless (2008), Sem gentileza (2014) e Eles te pegaram também (2021).

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