Sinopse Instante: Lidando com a ameaça global à liberdade e o futuro sombrio que ela praticamente garante, A Biblioteca do Censor de Livros, primeira obra da escritora kuwaitiana Bothayna Al-Essa publicada no Brasil, é uma fantástica e perigosa história sobre livros proibidos, bibliotecas secretas e o olhar ameaçador de um governo todo-poderoso. (Resenha: A Biblioteca do Censor de Livros – Bothayna Al-Essa)
Opinião: A Biblioteca do Censor de Livros é uma distopia que parte de uma premissa muito forte: uma sociedade em que a imaginação é considerada algo perigoso. Imaginar é crime. As pessoas são desestimuladas e até proibidas de imaginar, sonhar ou criar. E é a partir disso que a autora constrói toda a narrativa.
Dentro desse contexto, o livro trabalha o amor pelos livros, pelas histórias e pelo impacto que a literatura tem na vida das pessoas. Ao mesmo tempo, mostra como, para um governo autoritário, os livros são vistos como ameaça. Porque eles fazem pensar, fazem questionar, fazem imaginar… E isso é tudo o que esse tipo de regime quer evitar.
A Biblioteca do Censor de Livros acompanha um personagem que trabalha justamente como censor de livros. Ele faz parte de um sistema em que obras são analisadas para decidir se podem ou não ser publicadas. Só que existe um ponto muito interessante: à medida que ele lê, ele começa a se envolver com aquilo. Ele se descobre um leitor! E, nesse mundo, ser leitor é perigoso.
E não para por aí. Dentro da própria casa, ele tem uma filha que é extremamente imaginativa. É o tipo de criança em que as histórias brotam naturalmente: ela acredita em mundos mágicos, em fadas, no poder das narrativas. Ou seja: ela também representa um risco.
A narrativa de A Biblioteca do Censor de Livros é muito mais alegórica do que propriamente centrada em personagens profundos. Os personagens estão ali muito mais como representações de ideias: da censura, da imaginação, da resistência, do que como figuras construídas para gerar grande envolvimento emocional.
E aí entra um dos pontos mais interessantes do livro: a forma como a autora usa a própria literatura dentro da narrativa. Cada parte do livro dialoga com grandes clássicos, criando referências diretas e indiretas.
“Certa manhã, ao acordar preenchido de palavras dos outros, o Censor de Livros se deu conta de que havia se transformado num leitor.”
O início, por exemplo, remete a A Metamorfose. Ao longo da história, aparecem referências a Alice no País das Maravilhas e As Aventuras de Pinóquio, que reforçam essa ideia do imaginário, da fantasia, da construção de mundos. Outros livros importantes dentro da narrativa são Zorba, o Grego, que funciona como um ponto de virada para o protagonista, e 1984.
Além disso, há também um diálogo claro com Fahrenheit 451, principalmente na questão dos livros proibidos, das bibliotecas escondidas e da ideia de resistência através da leitura. Inclusive, há momentos em que os próprios censores passam a contrabandear livros que acreditam que não deveriam ser destruídos.
No fim, o que a autora constrói é uma reflexão muito clara: a literatura, a imaginação e as histórias são formas de resistência. Ler é um ato que pode ser perigoso e, justamente por isso, necessário.
É uma leitura instigante, importante e necessária. Não é uma história grandiosa ou extremamente envolvente, mas é uma obra que faz pensar. Um livro relativamente curto, com pouco mais de 200 páginas, de leitura fluida e acessível. E que cumpre muito bem o papel de provocar o leitor.
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A Autora: Bothayna Al-Essa nasceu no Kuwait, em 1982. Fundadora da biblioteca e editora Takween, desde 2014, dedica-se integralmente à escrita e ao trabalho cultural. Publicou mais de dez romances, entre eles Mapas do extravio e A Biblioteca do Censor de Livros. Seus livros foram traduzidos para o inglês, o italiano, o russo, o indonésio e outras línguas. Recebeu prêmios literários no Kuwait e no mundo árabe. Além de sua obra romanesca, publica ensaios e literatura infantil, e ministra oficinas de escrita criativa. A Biblioteca do Censor de Livros, seu primeiro livro publicado no Brasil, ganhou o Prêmio Sharjah de Criatividade Árabe na categoria Romance e foi finalista no National Book Award na categoria Tradução em 2024.






