Sinopse Carambaia: Pode-se que dizer que O túnel é um romance policial pelo avesso. O crime e seu autor são revelados na primeira frase do livro pelo protagonista e assassino, o pintor Juan Pablo Castel. Segue-se um relato angustiado das circunstâncias e engrenagens íntimas que o levaram a matar a mulher pela qual se apaixonou, María Iribarne. Não há detetives, mas uma autoinvestigação que tangencia a loucura, embora recoberta por uma racionalidade aparentemente rigorosa. (Resenha: O Túnel – Ernesto Sabato)
Opinião: Publicado em 1948, O Túnel é um daqueles livros curtos que deixam uma marca duradoura nos leitores. Logo na sinopse, a gente já descobre que o narrador, o artista plástico Juan Pablo Castel, matou uma mulher. A questão, portanto, não é descobrir quem cometeu o crime, mas entender como e por que ele aconteceu.
O Túnel é a narrativa de um homem doentio. Tudo começa quando Juan Pablo Castel, durante uma noite de exposição de suas obras, percebe que uma mulher, María, observa atentamente um detalhe específico de uma de suas pinturas. Naquele instante, Castel acredita ter encontrado alguém capaz de compreendê-lo de verdade. Para ele, María é a única pessoa que consegue enxergar o mundo da mesma forma que ele.
A partir dessa convicção, surgida “do nada”, nasce uma paixão que rapidamente se transforma em obsessão. Castel vai seguir, perseguir, rodear e reconstruir, ao longo da narrativa, todo o fluxo de acontecimentos que o levaram a cometer o crime.
O grande mérito de O Túnel está justamente na forma como Sabato constrói a mente do protagonista. Castel é um narrador inquietante. Ele teoriza o tempo inteiro, cria hipóteses, imagina situações e transforma suspeitas em certezas sem nunca buscar confirmação.
Tudo o que pensa se torna verdade.
Ciúmes, insegurança, vaidade e necessidade de controle vão alimentando um ciclo cada vez mais intenso de obsessão. O leitor acompanha, quase em tempo real, a escalada dessa mente perturbada, que interpreta a realidade a partir das próprias paranoias. E é justamente daí que vem o título do livro.
A mente de Castel funciona como um grande túnel: um espaço fechado, escuro e solitário, onde pensamentos obsessivos ecoam sem encontrar contraponto. Quanto mais ele se aprofunda nesse túnel, mais se afasta da realidade. O resultado é uma narrativa sufocante, intensa e profundamente psicológica.
Com pouco mais de 130 páginas, é uma leitura rápida, daquelas que podem ser concluídas em uma noite. Mas o impacto permanece por muito mais tempo.
No fim das contas, também é possível enxergar O Túnel como uma narrativa sobre violência contra a mulher. Um feminicídio contado a partir da perspectiva do agressor, revelando como obsessão, posse e incapacidade de lidar com frustrações podem desembocar em tragédia.
É um livro que mexe com a gente e deixa perguntas difíceis ecoando depois da última página.
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O Autor: Ernesto Sabato nasceu em Rojas, em 1911, filho de imigrantes italianos de classe média. Completou o doutorado em física na Universidad Nacional de La Plata em 1937, aos 26 anos. Depois de estudos no Laboratoire Curie, em Paris – quando se aproximou do círculo surrealista –, e no Massachusetts Institute of Technology, passou a dar aulas na universidade de La Plata. Artigos que escreveu contra o governo de Juan Domingos Perón lhe custaram a demissão. Em sua longa vida, Sabato exerceu vários ofícios e papéis. Já septuagenário, recebeu o pedido do presidente Raúl Alfonsín para chefiar as investigações sobre as graves violações dos direitos humanos durante a sangrenta ditadura militar argentina (1976-1983). Sabato presidiu, ao longo de 280 dias entre 1983 e 1984, a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep).
Antes e depois da publicação de O túnel, Sabato continuou escrevendo livros de ensaios, incluindo o estudo El otro rosto del peronismo. Somente em 1961 veio à luz o segundo romance do autor, Sobre heróis e tumbas, no qual retoma o estudo psicológico de O túnel sobre um pano de fundo histórico. Em 1974 Sabato publicou o terceiro e último romance, Abaddón, o Exterminador.
Entre outros volumes de não ficção, o escritor lançou em 1968 Tres aproximaciones a la literatura de nuestro tiempo, ensaios sobre Jorge Luis Borges, Alain Robbe-Grillet e Jean-Paul Sartre. Sabato recebeu o prêmio Cervantes, o mais relevante da língua espanhola, em 1984, mesmo ano em que saiu na Espanha o relatório Nunca mais. Em 1999, lançou seu livro de memórias Antes do fim e, em 2000, veio a público seu último livro, La resistencia, primeiro na internet e depois em papel. O escritor, que foi também um pintor respeitado, morreu em Santos Lugares, nas imediações de Buenos Aires, a poucos meses de completar 100 anos.
