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Resenha: As Mortas – Jorge Ibargüengoitia

Sinopse Pinard: Baseado em um dos casos criminais mais escandalosos do México do século XX, As Mortas recria, com ironia mordaz e humor negro, a trajetória de duas irmãs que transformaram uma rede de bordéis em um império de exploração e violência. Ao transformar a crônica policial em literatura, o autor não apenas revela a brutalidade do episódio real, mas também questiona os limites entre verdade e ficção. O resultado é uma narrativa envolvente, ao mesmo tempo divertida e perturbadora, que consagra Ibargüengoitia como um dos grandes mestres da sátira latino-americana. (Resenha: As Mortas – Jorge Ibargüengoitia)

Opinião: As Mortas é uma obra de ficção mexicana que se destaca pelo humor ácido e pela forte crítica social construída a partir de uma história essencialmente trágica. O grande diferencial do livro está justamente na forma como essa tragédia é narrada: com leveza, ironia e, em diversos momentos, até com certo tom de humor.

Um dos aspectos mais curiosos de As Mortas é que os acontecimentos narrados são baseados em um caso real ocorrido no México, ao longo do século XX. E isso provoca uma sensação constante de estranhamento durante a leitura, porque, em vários momentos, a história beira o absurdo, como se estivesse no campo do realismo mágico. No entanto, tudo aquilo, por mais inacreditável que pareça, tem raízes na realidade.

A trama gira em torno de duas irmãs cafetinas que constroem uma rede de bordéis. Ao longo do tempo, esse negócio se transforma em um espaço marcado por exploração, violência e abuso contra mulheres que trabalham sob o controle delas. À medida que a narrativa avança, o que inicialmente parece apenas um esquema marginal evolui para algo muito mais grave, mergulhando definitivamente no universo do crime.

Essas duas irmãs, que podem ser vistas quase como figuras mafiosas, constroem um verdadeiro império sustentado por dinheiro e influência. Utilizam esses recursos para manter acordos com a polícia e com estruturas de poder, garantindo proteção e impunidade. No entanto, quando começam a cair em desgraça, esse mesmo sistema que antes as sustentava deixa de protegê-las. A partir daí, a narrativa escala para uma sucessão de eventos marcados por mortes, violência e colapso.

Paralelamente à história principal, o autor constrói uma crítica social bastante contundente. O livro aborda, de forma irônica e mordaz, aspectos muito reconhecíveis da realidade latino-americana: corrupção policial, relações promíscuas com o poder político, lógica de propina e o oportunismo hipócrita das instituições, que se aproximam quando há interesse e se afastam quando deixam de se beneficiar.

Há também uma sensação constante de que essa história poderia se passar em qualquer país da América Latina, justamente porque dialoga com estruturas sociais e comportamentos bastante comuns na região. É aquele tipo de narrativa em que a realidade parece, por si só, uma ficção exagerada.

A linguagem de Ibargüengoitia é um dos pontos altos do livro. Trata-se de uma escrita ágil, irônica e extremamente bem dosada. Mesmo lidando com temas pesados como crime, exploração e morte, o autor conduz a narrativa com leveza e inteligência. Há passagens marcadas por humor negro, sarcasmo e tiradas muito mordazes, que tornam a leitura, ao mesmo tempo, divertida e provocativa.

O resultado é uma obra que transita com habilidade entre o trágico e o cômico, entregando uma leitura envolvente e, em muitos momentos, surpreendentemente divertida, apesar da gravidade dos acontecimentos. Uma leitura marcante, inteligente e absolutamente recomendável.

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O Autor: Jorge Ibargüengoitia (1928–1983) foi um dos escritores mais originais e irreverentes da literatura mexicana. Romancista, dramaturgo e cronista, destacou-se por seu humor ácido e sua crítica mordaz às instituições, à política e à sociedade do México. Obras como As Mortas, Os Relâmpagos de Agosto e Estas Ruinas que Ves consolidaram sua reputação como mestre da sátira literária. Colaborador habitual de jornais e revistas, Ibargüengoitia tinha um olhar agudo para os absurdos da vida cotidiana. Sua carreira foi interrompida precocemente por um acidente aéreo em 1983, mas seu legado permanece como referência central na literatura latino-americana do século XX.

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