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Resenha: O Sanatório – Sarah Pearse

Sinopse Intrínseca: Um resort isolado no alto dos Alpes Suíços é o último lugar em que Elin Warner gostaria de estar. Mas ao receber o convite inesperado para comemorar o noivado do irmão, Isaac, a quem não vê há anos, ela sente que o melhor que pode fazer é aceitar. Assim que chega, em meio a uma forte nevasca, Elin é imediatamente acometida por uma onda de tensão. Além do relacionamento estremecido com Isaac, algo no hotel a deixa nervosa. Antes um sanatório abandonado, o lugar tem um passado sinistro, que só alimenta o clima macabro que o permeia. Quando eles acordam na manhã seguinte e descobrem que Laure, a noiva do irmão, desapareceu sem deixar vestígios, a inquietação de Elin aumenta. Em pouco tempo, a tempestade impede qualquer um de chegar ou sair do hotel, e quanto mais tempo Laure permanece desaparecida e situações estranhas acontecem, mais o pânico se instaura entre os hóspedes e os funcionários confinados no lugar. (Resenha: O Sanatório – Sarah Pearse)

Opinião: Gosto demais de histórias que exploram situações de confinamento no alto de montanhas ou alpes e que têm a neve como elemento-vilão. O psicológico dos personagens é facilmente destroçado quando eles são colocados num local totalmente isolado com pouca ou nenhuma chance de comunicação externa e tendo a neve, suas tempestades e seu lado traiçoeiro como guardiões. É fácil provocar uma claustrofobia que sobressai dos capítulos para atingir em cheio os leitores. A gente se envolve e sente na pele o terror que emana de cada desdobramento.

O Sanatório, thriller de estreia de Sarah Pearse, combinou ingredientes sedutores para um bom suspense com toques de terror: as montanhas, um resort isolado por uma forte nevasca, pessoas sendo assassinadas e um passado sombrio e nebuloso para o prédio que antes de hotel havia sido um sanatório. Pense na gama de possibilidades que a autora poderia explorar e o livro vem para nossas mãos com ares promissores e altas expectativas. E olha, ele chega ao fim de forma satisfatória, mas deixando uma ou outra ponta que não convence muito.

Sarah Pearse soube construir uma trama muito sólida para seu suspense. Sanatórios foram palco de experimentos bizarros de uma ciência meio doentia nos séculos XIX e XX. Só aí já tem pano pra manga na criação de histórias de suspense. Quando ele vira um hotel, cercado de uma arquitetura minimalista extrema, exibindo relíquias médicas do antigo lugar em caixotes dispostos pelos salões e inteiramente feito de vidro, para que o exterior com sua neve sem fim fosse visto de onde quer que você estivesse, temos o cenário dos sonhos. Não precisa de muita coisa para causar arrepios em quem se hospeda ali e da noite para o dia descobre que está preso por tempo indeterminado porque uma avalanche soterrou os acessos.

Aí vem os toques sutis. Em primeiro lugar pessoas desaparecendo, sendo sequestradas por uma misteriosa figura usando uma antiga máscara de tratamento para tuberculose. E, lógico, essas pessoas vão reaparecer assassinadas de forma cruel, com mutilações e claramente como forma de transmitir alguma mensagem. Que a princípio ninguém vai entender bem. Em outra ponta, os personagens principais são estranhos, misteriosos, todos deixando claramente aquele ar de dúvida nos leitores. Quem aqui é confiável? Ou será que há alguém confiável?

Dito isso, o ponto que mais me encantou na obra foi a protagonista Elin. Porque ela foi desenvolvida de forma a que não tenhamos totalmente confiança em suas ações. Ela vem de inúmeros traumas e questões não resolvidas. Seu irmão mais novo morreu num trágico acidente e ela acredita que a culpa é do irmão mais velho (que, advinha? Está confinado com ela no hotel). Enquanto detetive, ela teve um caso trágico em que se viu encurralada e hoje vive numa licença sem fim sem saber se consegue retomar a carreira. Pra fechar, ela não consegue se entregar totalmente ao amor e seu namorado (que, tcharam, também está confinado) não sabe bem se o romance vai chegar a algum lugar. Pessoal, percebem como a protagonista é alguém com inúmeros desafios a superar? E como em vários momentos acabamos ficando sem saber se ela tem razão ou se está delirando por conta do local ou sendo influenciada pelas experiências do passado? Isso dá muito gás para a trama.

Isso tudo faz de O Sanatório um excelente thriller de estreia e a leitura flui de forma muito tranquila. O suspense é bem construído e as ações vão se sucedendo de forma a envolver os leitores. Porém, as explicações dadas lá no final, bem… a gente precisa ter um cadinho de boa vontade para aceitar que a pessoa fez esse auê todo por causa de algo.

Fugindo de spoiler, o que posso dizer é que, beleza, há traumas e motivos suficientes para motivar digamos que uma vingança. Só que o rolê de mortes, raptos e mensagens é muita função. Deu-se uma volta muito grande e a gente acaba se perguntando: mas num dava pra vingar de um jeito mais fácil não? Em resumo, não é que eu não tenha gostado das explicações, mas elas não me convenceram tanto mediante as expectativas que eu criei. Eu esperava que o sanatório e seu passado fossem mais explorados como motivadores.

Contudo, pelo conjunto da obra, O Sanatório é um thriller que vale demais ser lido. A história é boa e como falei, reúne uma série de elementos que brincam com nossos temores de isolamento, de ameaças, de claustrofobia, da sensação de que estamos sendo vigiados. E para onde a gente olha, só há aquele branco sem fim. Gélido. Frio. Sem esperanças de escapatória.

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O Sanatório

A Autora: Sarah Pearse cresceu em Devon, no sudoeste da Inglaterra, e viveu muitos anos na Suíça antes de retornar ao Reino Unido. Estudou literatura inglesa e escrita criativa na Universidade de Warwick e concluiu uma pós-graduação em jornalismo. Seus contos já foram publicados em diversos veículos, e O sanatório é seu romance de estreia.

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