Sinopse Suma: Ragle Gumm tem um trabalho bastante peculiar: ele sempre acerta a resposta para um concurso diário do jornal local. E quando ele não está consultando seus gráficos e tabelas para o trabalho, ele aproveita a vida tranquila em uma pequena cidade americana em 1959. Pelo menos, é isso que ele acha. Mas coisas estranhas começam a acontecer. Primeiro, Ragle encontra uma lista telefônica e todos os números parecem ter sido desconectados. Depois, uma revista sobre famosos traz na capa uma mulher belíssima que ele nunca tinha visto antes, Marilyn Monroe. A única alternativa que Ragle encontra para descobrir o que está acontecendo é fugir da cidade e de todos esses acontecimentos bizarros, contudo, nem a fuga nem a descoberta serão tão fáceis quanto ele imaginava. (Resenha: O Tempo Desconjuntado – Philip K. Dick)

“Isto é o lado de fora, ele pensou. A rodovia de fora, que éramos proibidos de ver ou até de saber que existia. ”

Opinião: O que é a realidade, afinal? Foi com essa pergunta que resenhei O Homem do Castelo Alto, obra-prima em que PKD nos mostra uma versão de mundo em que o Eixo havia saído vitorioso da II Guerra Mundial. Seguindo a linha de raciocínio dessa mesma pergunta, O Tempo Desconjuntado traz uma outra perspectiva para o que seria essa realidade que acreditamos viver. Mestre em manipular o real e assim apresentar diferentes possibilidades para tudo o que nos cerca, Philip K. Dick soube como poucos soprar uma dúvida em nossos ouvidos e fazê-la crescer até se transformar em questionamentos interessantes e envolventes.

Publicado em 1959, portanto no auge da tensão da Guerra Fria que mexia nitidamente com a sociedade norte-americana, O Tempo Desconjuntado reflete algumas questões que encontram justificativa nessa paranoia de mundo em que o medo dos soviéticos e seus males surgiam nas conversas mais banais do dia a dia. Desfilam pelas páginas do livro temas como a exploração espacial, que estava a pleno vapor; o espaço conquistado pela televisão como meio de informação, começando a superar o rádio; os traumas de uma guerra ainda não superados e o medo de um novo conflito… Tudo isso condensado no cotidiano de uma pequena cidade.

Nesse cenário, PKD insere Ragle Gumm, um sujeito com uma rotina monótona de vida, dedicada a decifrar charadas para um concurso diário promovido por um jornal. Esse cotidiano banal e tedioso é abalado quando ele passa a ter visões de que as coisas ao seu redor se dissolvem, desaparecem. Essa aparente ilusão, que o faz duvidar um pouco de sua sanidade, se amplia quando ele descobre publicações que trazem informações verídicas, mas as quais ele nunca teve acesso. A sequência de coisas estranhas não para até que Ragle começa a perceber que talvez a realidade em que ele vive não seja tão real assim. A paranoia da sociedade em geral se mistura com a paranoia que o personagem começa a viver e o resultado disso são descobertas nem um pouco interessantes.

Os leitores já acostumados com a obra de Philip não vão encontrar muitas divagações filosóficas ou existenciais em O Tempo Desconjuntado. A dinâmica deste livro é bem diferente da que marcou suas obras mais famosas. Por outro lado, elementos que mais tarde inspiraram os produtores do filme O Show de Trumam, embora nunca tenham dado o crédito público a PKD, serão facilmente identificados. Construído de forma envolvente, o mistério em torno da vida de Ragle tem altos e baixos e em alguns momentos soa confuso. Mas a capacidade de questionar os limites da realidade, que futuramente vai marcar e caracterizar sua obra, já se mostra nitidamente presente.

Construído com base em uma estrutura narrativa que não se preocupou em esgotar todas as possibilidades que a história permitia, O Tempo Desconjuntado é um exercício de criatividade que para a época deve ter soado extremamente interessante. Se montarmos uma espécie de “medidor de qualidade” para o conjunto da obra de PKD, o livro se insere no meio, nem tão genial, nem tão ruim. Ele traz consigo uma trama envolvente e inteligente. Elementos mais que suficientes para estimular a leitura.

Avaliação:

 

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O Homem do Castelo Alto

O Autor: Philip K. Dick, também conhecido pelas iniciais PKD, foi um escritor americano de ficção científica que alterou profundamente este gênero literário. Apesar de ter tido pouco reconhecimento em vida, a adaptação de várias das suas novelas ao cinema acabou por tornar a sua obra conhecida de um vasto público, sendo aclamado tanto pelo público como pela crítica e tornando-se um ícone da contracultura.

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Jornalista e aprendiz de serial killer. Assumidamente um bookaholic, é fã do mestre Stephen King e da literatura de horror e terror. Entre os gêneros e autores preferidos estão ficção científica, suspense, romance histórico, John Grisham, Robin Cook, Bernard Cornwell, Isaac Asimov, Philip K. Dick, Saramago, Vargas Llosa, e etc. infinitas…

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