Natália Borges Polesso é escritora e doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS. Como autora, já publicou Recortes para álbum de fotografia sem gente (2013) – compilação de contos pela qual logrou o prêmio Açorianos – e Coração à corda (2015). Em Amora (2015) – vencedor do prêmio Jabuti 2016 também na categoria de contos -, apresenta narrativas a respeito de mulheres que amam outras mulheres, num registro que, como aponta Paloma Vidal na apresentação do livro, põe em suspensão “um sentimento de comunidade inevitável, mesmo que tantas vezes inconfessável”.

Tal envolvimento é provocado, sobretudo, pela sensação de não-pertencimento das personagens. Natália esboça deslocamentos e silêncios infelizmente cotidianos a mulheres homossexuais – e, por correspondência, à parte significativa da comunidade LGBT. Sente-se o nó incômodo na garganta: as vidas postas em jogo no correr das páginas estão sempre a ponto de dizer, mas recuam para as dissimulações que envolvem ambientes profissionais, familiares e acadêmicos, por exemplo. Mordem a língua.

Mas os silêncios também guardam muita ternura, e contos como Marília acorda ou o próprio Amora dão conta de traçar contornos mais afirmativos às trincheiras dessas mulheres – inclusive há espaço para o bom humor, especialmente em Diáspora lésbica. Afinal, só se vence o conservadorismo, o fascismo e a censura com muita festa, amor e potência de vida, não é mesmo?

As amoras de Natália rasuram o senso comum a respeito de mulheres lésbicas, e evocam imagens politicamente muito fortes – por vezes até didáticas, como em As tias: nada é mais “pedagógico” do que este conto para apontar a legitimidade e necessidade da união estável ou casamento homoafetivos. Um texto, como tantos do livro, de uma delicadeza machucada.

 Amora, portanto, passa longe de qualquer fetichização: como já dito, é sobre mulheres que amam outras mulheres – e são protagonistas absolutas. Os homens despontam em poucas narrativas, e sem muito destaque. A cena, a voz, a vez é delas. É de quem tenciona uma literatura que ofereça o diverso como parte desta arena chamada Brasil.

Avaliação: 5 estrelas.

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Soteropolitano viciado em séries, música pop e, no que diz respeito a livros, leitor assíduo de literatura contemporânea – especialmente a brasileira. Alguém que não dispensa os clássicos, porém jamais deixará passar um lançamento de Elvira Vigna ou Daniel Galera. Estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes na Universidade Federal da Bahia (com ênfase nos estudos literários).

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