ATENÇÃO: História da Menina Perdida (2014) é o quarto e último volume da série napolitana. Portanto, é possível que esta resenha apresente spoilers dos três livros anteriores. Caso tenha interesse em conhecer a tetralogia em seus aspectos mais gerais, visite este post.

A série napolitana, maior best-seller da entidade Elena Ferrante, encerra-se neste História da Menina Perdida, romance que compreende maturidade e velhice das já conhecidas Lenu e Lila. A história tem início bem ao término do volume anterior e, num primeiro momento, apresenta sobretudo os conflitos a respeito do triângulo Lenu, Nino e Pietro. Com a mesma prosa cortante dos livros pregressos, Ferrante nos apresenta a um desfecho talvez menos folhetinesco, mas ainda arrebatador – e que faz jus à grande repercussão da série.

De início, sobressai-se o quanto a autora coloca os mesmos personagens em jogo para fazer saltar outras camadas de suas relações: as máscaras caem página por página – em especial a da falsa lisonja masculina – e mais uma vez nenhuma mão é estendida. Elena Ferrante definitivamente é uma escritora que desconfia de todo e qualquer homem – e o leitor que lide com isso (leitor mesmo, sem neutralização de gênero).

A partir das novas circunstâncias, cava-se ainda mais fundo na subjetividade da narradora: Lenu está mais confortável com sua história e seus desejos, confrontando-se de maneira mais evasiva com Lila. Se antes a primeira mal conseguia recalcar a frustração de produzir-se num cotejo com a segunda, agora admite que alguns bons empurrões foram necessários. Nesta perspectiva, Lenu tece uma digressão das mais pujantes de toda tetralogia: Eu era eu e, justamente por esse motivo, podia abrir espaço para ela em mim e lhe dar uma forma resistente. Já ela não queria ser ela e, portanto, não era capaz de fazer o mesmo (p. 370).

Por outro lado, Nápoles permanece como uma sentença inscrita no corpo dos personagens, sempre a puxar todos de volta para o trânsito, a violência e o dialeto. Como destaca Eliane Robert Moraes em artigo à edição de Maio da Quatro cinco um, as relações paradoxais que as protagonistas estabelecem com a cidade, e especialmente com o bairro, tem a ver com um “nojo encantado”, um movimento de repulsa e reconhecimento. Por mais que tente desviar, Lenu ainda se identifica enquanto alguém constituído no cerne daquela miséria – e retorna a ele porque (re)descobre possibilidades de afeto.

O registro de Ferrante também continua serial. Impressiona como ela transita com harmonia entre a superficialidade do mero desenrolar de acontecimentos e reflexões densas a respeito, principalmente, da condição feminina. Pessoalmente acredito que, apesar de ainda folhetinesca, a narrativa ganha contornos mais íntimos neste último volume. Senti uma presença mais tímida das grandes reviravoltas que marcavam sobretudo o segundo e o terceiro volume: o olhar de Lenu vai se deter sobremaneira no que ela foi capaz de fazer com as desgraças e alegrias às quais foi submetida, inclusive, como já exposto, no sentido de uma ressignificação da sua relação com Lila.

O sucesso da série, portanto, parece resultado não apenas da prosa absolutamente viciante da autora, mas da resposta à necessidade de um significativo grupo de leitores: acompanhar histórias densas a respeito de mulheres fortes – vide também a repercussão de programas como Orange Is The New Black e How To Get Away With Murder. Parte do público contemporâneo deseja tecer reflexões a respeito da opacidade que envolve alguns temas, lançar o olhar sobre o escuro do mundo. Interessa, então, visitar a complexidade do que significa estar num corpo que é arena pública para o assédio, a violência e o silenciamento.

Com isto não quero dizer que História da Menina Perdida é uma narrativa didática a respeito de empoderamento feminino. A economia da linguagem de Elena Ferrante é sofisticada em suas digressões: mobiliza um leitor disposto a brigar com o texto, a perceber que, quando se lança luz sobre uma ranhura, todo o entorno se escurece. A tetralogia contempla um arco extenso, e a profusão de acontecimentos é amarrada de maneira dialógica e harmoniosa. Uma conclusão que, inevitavelmente, pede infinitas revisitas ao universo de Ferrante.

Avaliação: 5 estrelas.

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Soteropolitano viciado em séries, música pop e, no que diz respeito a livros, leitor assíduo de literatura contemporânea – especialmente a brasileira. Alguém que não dispensa os clássicos, porém jamais deixará passar um lançamento de Elvira Vigna ou Daniel Galera. Estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes na Universidade Federal da Bahia (com ênfase nos estudos literários).

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