Ivone Benedetti é doutora em literatura francesa pela USP e já traduziu autores como Montaigne, Voltaire e Foucault. Seu primeiro romance, “Immaculada”, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2010. “Cabo de Guerra”, lançado no ano passado pela editora Boitempo, retoma o período da ditadura militar brasileira rasurando o velho binômio luta armada X repressão. O livro é ambientando neste cenário, mas, diferente das outras e poucas obras a respeito do regime, é narrado pela voz de um “cachorro” – como era designado o agente duplo que se infiltrava em alguma organização clandestina para coletar informações.

O protagonista é um baiano nascido em Ilhéus que muda-se para São Paulo, a princípio, com o objetivo de completar os estudos e conseguir um bom emprego. Atraído por uma moça, envolve-se de maneira não muito arraigada com o movimento estudantil. A dinâmica dessa relação começa a se transformar apenas quando presencia um atropelamento em Santos numa noite de Janeiro de 1969: tal acontecimento é o marco inicial de suas desventuras. Já em 2009, condenado a uma cama e aos cuidados de uma irmã por quem não possui muito apreço, ele rememora tanto os fragmentos de sua vida dupla quanto a infância em Nazaré das Farinhas, sobrepondo os episódios e duvidando da precisão de alguns.

Era o distúrbio da infância e da adolescência que voltava, sem aviso prévio, sem motivo aparente. Distúrbio nunca muito bem diagnosticado, no máximo medicado. A poder de remédios, os médicos conseguiam apagar por antecipação toda e qualquer imagem irreal que os caprichos dos meus centros corticais superiores (conforme me explicou um deles, poeticamente), resolvessem criar, mas à custa de uma alternância entre zonzeira e euforia. (p. 16)

O cabo de guerra, enquanto jogo, pressupõe a disputa entre duas pontas. Durante a leitura, no entanto, percebemo-nos diante de um homem incapaz de tomar partido. O contexto, inclusive de guerra fria, lhe convoca a escolher um lado, mas ele é inapto a envolver-se de modo apaixonado com qualquer um deles – resgate de um tempo que, diante de toda polarização, talvez ainda nos sirva de espelho.

O livro é ágil, de capítulos curtos, e aponta-nos a uma trama onde não cabem maniqueísmos. O protagonista, muito bem elaborado, possui profundidade, e a voz narrativa se ajusta perfeitamente a suas lacunas éticas. Precisamente por ser tecido em primeira pessoa, não seria apropriado falar em julgamentos, mas o texto levanta uma reflexão interessante sobre as consequências de nossas escolhas – ou do modo como nos deixamos ser levados pelas contingências.

“Cabo de Guerra” figura naquela ainda pequena parte da estante que reservamos à ditadura militar, mas propõe discussões das quais não devemos evadir. A autora nos apresenta a linhas de fuga para o velho embate com o qual associamos o período, a partir de um texto bem escrito, movimentado e viciante. Leitura obrigatória!

Avaliação: 5 estrelas.

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Soteropolitano viciado em séries, música pop e, no que diz respeito a livros, leitor assíduo de literatura contemporânea – especialmente a brasileira. Alguém que não dispensa os clássicos, porém jamais deixará passar um lançamento de Elvira Vigna ou Daniel Galera. Estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes na Universidade Federal da Bahia (com ênfase nos estudos literários).

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