Minha mãe se afogou na noite de 23 de maio, dia do meu aniversário, no mar de um lugar chamado Spaccavento, a poucos quilômetros de Minturno: este é o começo perturbador do mais novo romance de Elena Ferrante traduzido para o Brasil. Atirados à história sem grandes apresentações, conhecemos a narradora, Delia, e sua relação ambígua com Amalia – encontrada morta sem sinais de agressão e portando apenas um sutiã de grife. Enquanto interpreta as possíveis causas do acontecido, a protagonista tem de confrontar três homens que marcaram de maneira violenta o passado da mãe: o ex-marido, o irmão e um antigo vizinho.

Em uma Nápoles suja, quente, de gente rude e apressada se esbarrando por entre o trânsito caótico, a dimensão do texto que, superficialmente, parece a mais saliente, diz respeito à violência contra a mulher (tema recorrente em Ferrante). Durante diversas passagens do texto este corpo desponta enquanto arena pública de uso masculino: seja através de mãos bobas, socos, chutes, xingamentos, humilhações públicas e privadas, o clima tenso através do qual a narrativa é tecida contribui para que o leitor sinta o constante senso de perigo cercando-as: uma ameaça tanto simbólica quanto factual.

Embaixo do viaduto, Amalia fora seguida por desocupados, ambulantes, ferroviários, pedreiros mastigando pães recheados de brócolis e salsichas ou bebendo vinho. Ela contava, quando queria contar, que a seguiam lado a lado, muitas vezes respirando na sua orelha. Procuravam tocar em seus cabelos, em um ombro, em um braço. Alguns tentavam pegar sua mão enquanto diziam obscenidades em dialeto. Ela mantinha os olhos abaixados e apertava o passo. (p. 133-134)

Amalia, já morta no início da narrativa, só nos é esboçada através do que é dito por Delia em fragmentos dispersos, sobrepostos e, principalmente, de uma memória incômoda. Sua relação com a mãe é como um jogo de aproximação e distanciamento: por mais que Delia se afaste, ainda reconhece o corpo de Amalia em seus traços – e por vezes a proximidade lhe agrada. De maneira nem tão sutil, ao longo de uma narrativa permeada de rancores e culpas, Elena talvez esteja a nos falar sobre a competitividade entre mulheres, esta infelicidade que revela-se mesmo no vínculo entre mãe e filha.

Este livro é sobre um corpo que, apesar das marcas, resiste. Um corpo que, em sua pequena subversão, longe dos olhares masculinos, dá-se a o direito à risada. Amalia é este corpo dúbio. Subserviente em suas inúmeras fugas. Um corpo que, como as memórias de Delia, nós leitores temos dificuldade em alcançar.

Como toda a literatura de Ferrante, este é um livro denso, que nos convoca a uma releitura e toca em temas desconfortáveis apesar de necessários. Leitura fluida por conta da escrita sem grandes arroubos metafóricos ou descrições excessivas, mas que exige um olhar atento. Recomendo muitíssimo e, quem tiver curiosidade em conhecer mais sobre o grande best seller da autora, a série napolitana, pode clicar aqui.

Avaliação: 5 estrelas.

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Soteropolitano viciado em séries, música pop e, no que diz respeito a livros, leitor assíduo de literatura contemporânea – especialmente a brasileira. Alguém que não dispensa os clássicos, porém jamais deixará passar um lançamento de Elvira Vigna ou Daniel Galera. Estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes na Universidade Federal da Bahia (com ênfase nos estudos literários).

1 COMENTÁRIO

  1. Terminei recentemente a leitura de “Um amor incômodo” e de forma gera, gostei. No entanto, a leitura por vezes parece travar em meio aos “devaneios” da protagonista (Delia), deixando o livro vez ou outra, massante.
    Antes de ler Ferrante, pesquisei sobre a autora e seus demais livros, me chamando mais atenção o fato dela trazer a tona, questões pertinentes a Itália mais caricata dos anos 1950, porém ainda em voga naquele país nos dias de hoje.
    Como Rafael Gurgel, também recomendo e muito a leitura desta obra.
    Abraços.

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