Robert Littell é um celebrado autor estadunidense de romances de espionagem. Pouco conhecido no Brasil, “De Mandelstam para Stálin” (2009) é sua única obra traduzida em catálogo por aqui – até onde consegui averiguar. Outras como “A Traição de A. J. Lewinter” (1973) ou “A Companhia” (2002) podem ser encontradas em sebos.

Neste “epigrama trágico” – subtítulo do livro em português -, tomamos conhecimento das inquietações política e poética vividas por artistas soviéticos nas três primeiras décadas do século XX. Diante do comando de Stálin, quem não se submetia à estética obrigatória do realismo socialista via-se em grandes problemas com o estado, especialmente por que as prisões e mortes aconteciam de forma indiscriminada. A esta realidade insegura estava inserido Óssip Mandelstam, que ousou escrever um poema para acelerar o fim do ditador – ao menos era o que esperava.

O romance é narrado em primeira pessoa por diversas vozes: além de Óssip, aparecem com frequência Nadejda Iákovlevna, sua esposa, e Anna Akhmátova, sua grande amiga e também poeta. A narrativa polifônica cria momentos de bastante força dramática, sobretudo quando acompanhamos Fikrit Shotman, um ingênuo brutamontes de circo que, apesar de condenado injustamente a 4 anos de trabalho forçado, continua depositando fé sobre o regime bolchevique. No entanto, por diversas vezes o tom da narração não se modula ao personagem que está em primeiro plano e as vozes assemelham-se entre si – não sei dizer se apenas um problema na tradução do Mauro Gama ou algo também perceptível no original.

A obra nos chama atenção para a capacidade política e subversiva da arte, poder que, inclusive, a torna imortal. Littell, de forma sutil, é mais um a nos dizer que poetas passam, regimes totalitários passam, mas a poesia prevalece – e a História sempre fica ao lado das e dos poetas:

– […] Temos ouvido os físicos especularem sobre o poder explosivo contido num átomo. Estou profundamente empenhado na proposição de que um poder explosivo reside, também, no núcleo de um poema. Posso liberar esse poder, posso desencadear a explosão, se eu mesmo puder abandonar a sanidade, se me tornar suficientemente louco, nos dois sentidos da palavra, para permitir que surja o berro da atrocidade cravado na minha garganta. – Óssip me olhou com intensidade. – Berrar tem muito em comum com chorar, Anna, e uma vez que você inicie, se arrisca a não conseguir parar. (p. 73)

Apesar da violência do que é narrado, o texto de Littell é bastante fluido, principalmente por que repleto de diálogos: o romance é um típico page-turner. Vale tanto como relato histórico quanto como boa história a ser acompanhada. Recomendo, porém é um livro que solicita outras leituras – em especial a pessoas que, como eu, não conhecem muito de história russa e/ou soviética.

– Se você respira o ar do terror – disse ele -, acaba infectado. Todos se tornam vítimas: aqueles cujas cabeças são cortadas, os executores que cortam a cabeça, as massas na rua que acompanham, mesmo aqueles que têm a decência de desviar os olhos. (p. 326)

Avaliação: 4 estrelas.

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Soteropolitano viciado em séries, música pop e, no que diz respeito a livros, leitor assíduo de literatura contemporânea – especialmente a brasileira. Alguém que não dispensa os clássicos, porém jamais deixará passar um lançamento de Elvira Vigna ou Daniel Galera. Estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes na Universidade Federal da Bahia (com ênfase nos estudos literários).

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