Marcelo Rubens Paiva é um escritor, dramaturgo e jornalista nascido em São Paulo. Seu primeiro romance, “Feliz ano velho” (1982), bestseller absoluto, aborda o acidente que o deixou tetraplégico aos 20 anos de idade. Sua militância com relação à acessibilidade para pessoas deficientes, em especial através da ONG Centro de Vida Independente, conquistou repercussão e avanços importantes. Define-se como um Reinaldo Azevedo à esquerda – como podemos perceber numa entrevista à TPM – e, hoje, uma de suas principais causas é também a revisão da Lei de Anistia.

Sabemos muito bem que o terror que reinou no país foi obra de parte dos militares. Sabemos muito bem que não se fazem generalizações em acirramento ideológico. Militares foram quem mais sofreram nas mãos dos militares durante a ditadura. Muitos foram presos, expulsos, humilhados, exilados, torturados e mortos. Aliás, grande parte dos que combateram a ditadura militar, desde o seu começo, foram militares contrários ao regime. Muitos caíram na luta armada. Fundaram até uma organização clandestina, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), de sargentos, tenentes e capitães descontentes. (p. 41)

É neste tom coloquial, como que numa conversa corpo-a-corpo com o leitor, assumindo um formato tanto de ensaio quanto de memória, que Marcelo apresenta-nos “Ainda estou aqui” (2015). O livro nos conta sobre o desaparecimento de seu pai, Rubens Beyrodt Paiva, em Janeiro de 1971, e a reconfiguração de sua família – sobretudo em relação a como sua mãe, Eunice Paiva, lidou com o luto ao perceber-se viúva numa situação na qual estava privada inclusive de solicitar um atestado de óbito.

Ela, no entanto, figura descrita como uma pragmática por excelência, não permitiu que sua família assumisse a postura de vítima. Formou-se em Direito aos 46 anos e não apenas conseguiu construir um patrimônio sem o que Rubens teria deixado à família, como engajou-se de maneira profunda na defesa da demarcação de terras indígenas. Marcelo, em diversas passagens do livro, lembra-nos de que os crimes cometidos pela ditadura foram contra a humanidade, crimes de um poder que, em suas próprias palavras, é instável, autoritário e precisa da violência limítrofe para se firmar – comparando o acontecido a seu pai com o desaparecimento recente de Amarildo Dias de Souza.

“Ainda estou aqui” é, portanto, um livro preocupado em resgatar e perpetuar uma memória, em especial a memória de Eunice, que hoje encontra-se com Alzheimer. É uma obra fragmentada, que vai e volta no tempo, e joga com a recuperação das lembranças – sem manipular nossas emoções através de um artifício fácil como a autopiedade.

Ainda vejo o facho, não quero me afastar. Existem várias formas de contar a história sobre memória e a falta dela. Procurarei a fogueira no alto quando o mar me puxar. Vou para voltar. Quem nadou em mar aberto sabe: antes de lutar desesperadamente contra a correnteza, é melhor deixar-se levar por instantes; é preciso ter calma e coragem; a correnteza enfraquece, então saímos fora. (p. 35)

A obra é irrefutavelmente necessária num país tão desinformado e de memória tão curta quanto o nosso. Durante a leitura, senti-me angustiado não apenas pelo que representou a ditadura militar, mas também pela lembrança indigesta de que, em pleno 2017, exista quem defenda o retorno de tal regime. Diferente do que boa parte das pessoas pensa, as vítimas da ditadura não foram apenas militantes de esquerda – o que já seria grave o suficiente: cerca de 121 indígenas que resistiram à desapropriação de suas terras para a construção de rodovias como a Transamazônica foram presos e torturados, alguns seguem desaparecidos.

Povos sofreram remoções forçadas. Aldeias foram dizimadas . Houve genocídio dos índios xetás no Paraná. Houve genocídio dos avás-canoeiros no Araguaia e um massacre contra os cinta-largas no Mato Grosso. Teve uma cadeia só para indígenas, o chamado Reformatório Krenak, construído em Governador Valadares. (p. 207)

Recomendo intensamente a leitura do livro. Se fosse professor de História, Filosofia ou Sociologia, sem sombra de dúvidas empreenderia algum trabalho a partir da obra, porque ela precisa chegar às pessoas. Volto a dizer: nos tempos de ódio desinformado em que vivemos, “Ainda estou aqui”, através de um tom fluido e acessível, faz-se necessário de maneira inconteste.

Avaliação: 5 estrelas.

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Soteropolitano viciado em séries, música pop e, no que diz respeito a livros, leitor assíduo de literatura contemporânea – especialmente a brasileira. Alguém que não dispensa os clássicos, porém jamais deixará passar um lançamento de Elvira Vigna ou Daniel Galera. Estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes na Universidade Federal da Bahia (com ênfase nos estudos literários).

1 COMENTÁRIO

  1. Sem dúvida o resgate do que foi o terror militar de 64- 85, denominado por muitos de “revolução militar”, se faz necessário nesse contexto de ascensão do fascismo e da transgressão dos direitos humanos no Brasil e no mundo. Esse post foi um grande achado, seguirei os conselhos do autor Rafael Gurgel e lerei o “Ainda estou aqui”.

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