Crítica: Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2010, Mario Vargas Llosa é um escritor contemporâneo nascido no Peru. Sua última obra, “Cinco esquinas”, foi publicada no ano passado, e sua extensa bibliografia conta, inclusive, com um romance intitulado “A guerra do fim do mundo” (1987), que revisita nossa brasileiríssima guerra de Canudos. Além de ficcionista, Llosa também assina trabalhos ensaísticos e já se envolveu de maneira ativa na vida política de seu país, candidatando-se à presidência em 1990 – posto perdido para Alberto Fujimori, que viria a submeter o Peru a quase 10 anos de ditadura (para saber mais sobre o período, clique aqui).

Travessuras da menina má” (2006), no entanto, nos apresenta a Ricardo Somocurcio, um rapaz de classe média que vive no bairro de Miraflores, em Lima, com sua tia Alberta. Ainda no Peru, ele apaixona-se por Lily, uma chilenita misteriosa que responde negativamente às investidas de todos os garotos e jamais levou alguém à sua casa. O amor de Ricardo – o “bom menino” ou “coisinha à toa”, como também chegaremos a reconhecê-lo – vê-se frustrado desde o início, porém jamais se desestabiliza, e a menina má, por sua vez, enquanto assume diversas identidades, entra e sai da vida de nosso narrador aparentemente sem remorso algum.

Em entrevista à Folha de São Paulo à época do lançamento, Llosa revelou que “Travessuras” é autobiográfico na medida que revisita os momentos nos quais viveu em determinadas cidades. O amor torto entre Ricardito e Lily, portanto, tem como cenário a Paris do Maio de 68, a Londres do movimento hippie, a Tóquio dos grandes mafiosos e a Madri em transição política dos anos 80. Neste sentido, o romance é bastante imersivo e as descrições de todos esses lugares nos convidam a conhecê-los muito mais pelo seu conteúdo humano do que pelas cafeterias, museus ou teatros.

Ricardo, então, é este homem simples, que trabalha como tradutor freelancer para a UNESCO e consegue pagar seus prazeres com o razoável dinheiro ganho. Sua única ambição, desde cedo, sempre foi viver em Paris. Não por que quisesse tornar-se escritor ou músico – como chega a ser perguntado -, mas por conta de toda incandescência cultural. Lily, por outro lado, parece não apenas incapaz de deslocar-se de suas fantasias, como investe muito poder nas fortunas dos ricaços com quem se envolve. Assim, estas duas maneiras tão distintas de estar no mundo não conseguem entrar num acordo com relação às suas expectativas. Presenciamos, então, uma paixão avassaladora por parte dele, e pragmatismo por parte dela.

Contudo, diante da maneira como Llosa se estende sobre os acontecimentos, a trama se processa de maneira vagarosa. Não espere um livro page turner – ao menos não o foi para mim. A história também não conta com grandes arroubos de originalidade e, conforme nos aproximamos do final, percebemos que tudo se dá de maneira bem previsível – especialmente durante as últimas linhas.

Porém recomendo a leitura ainda assim. Latino-americanos que somos, adoramos acompanhar paixões impossíveis – e tudo fica ainda melhor com cenários historicamente tão interessantes. Divirta-se ao conhecer a efervescência do Quartier Latin e de Earl’s Court, e perdoe as mancadas do Ricardito. Como dito acima, não acredito que seja um livro rápido, mas de todo jeito é bastante prazeroso.

Avaliação: 4 estrelas.

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Soteropolitano viciado em séries, música pop e, no que diz respeito a livros, leitor assíduo de literatura contemporânea – especialmente a brasileira. Alguém que não dispensa os clássicos, porém jamais deixará passar um lançamento de Elvira Vigna ou Daniel Galera. Estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes na Universidade Federal da Bahia (com ênfase nos estudos literários).

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