Resenha: Estação Carandiru – Drauzio Varella

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Sinopse Companhia das Letras: Em 1989, o médico Drauzio Varella iniciou um trabalho voluntário de prevenção à AIDS na antiga Casa de Detenção de São Paulo, então maior presídio da América Latina. Drauzio conheceu personagens extraordinários – como Mário Cachorro, Sem-Chance, seu Jeremias, Filósofo e Loreta -, que se relacionavam por meio de um rígido código penal não escrito, criado pela própria população carcerária. Neste livro, Drauzio fala da sua experiência, das histórias impressionantes dessas pessoas e das formas que eles encontraram para viver na cidadela do Carandiru.

Opinião: Se você tem mais de 30 anos deve se lembrar do massacre do Carandiru, chacina que vitimou, pelos números oficiais, 111 detentos em outubro de 1992. Eu não lembro. Na época eu tinha apenas quatro anos, mas me recordo vagamente do desenrolar da história nos anos seguintes. O caso só foi julgado em 2013, 21 anos mais tarde, mas os relatos da Casa de Detenção de São Paulo, demolida em 2002, continuam vivos no cinema, televisão e, claro, na literatura.

Em “Estação Carandiru” (1999), Drauzio Varella conta várias histórias dos 10 anos em que trabalhou como médico voluntário na Casa de Detenção. Entre palestras de prevenção à AIDS e atendimentos ambulatoriais, Varella nos apresenta personagens diversos, desde homens simples que escolheram o crime como consequência de uma vida pobre e sem opções, passando por funcionários da cadeia e chegando a detentos que fizeram do trabalho como faxineiros, cozinheiros e marceneiros do Carandiru, uma forma de se manterem longe dos problemas do cárcere.

Um dos vários pontos interessantes da obra é acompanhar a explosão do crack na cadeia, droga até então pouco popular. Entre as décadas de 1980 e 1990, a cocaína injetável era a personagem principal dentro do Carandiru, ocasionando um problema ainda maior: a disseminação da AIDS na penitenciária. Sem medicação e em condições precárias de saúde e higiene, a AIDS ajudou a vitimar vários detentos.

Entre tantos personagens, doenças, códigos rígidos de conduta, superlotação de celas, estrutura física sub-humana, todos os caminhos de “Estação Carandiru” culminam para o dia 2 de outubro de 1992. Uma briga entre detentos transformou-se na maior chacina da Casa de Detenção de São Paulo. Contada pelos próprios sobreviventes, o relato é uma segunda versão de uma história que continua em aberto.

Em um país onde a máxima “bandido bom é bandido morto” cresce vertiginosamente, “Estação Carandiru” (1999) é uma leitura essencial. Drauzio Varella não só conta histórias de vida, histórias de morte, mas humaniza cada um daqueles milhares de detentos do Carandiru, mostrando que eles são muito mais pessoas do que propriamente monstros. .

O livro inspirou o filme “Carandiru”  de 2003, aclamado pelo público e crítica. Além disso, Drauzio Varella também produziu o documentário “Deus e o Diabo em Cima do Muro” . Em 2012, o livro ganhou uma sequência, “Carcereiros”, narrando o cotidiano dos agentes penitenciários.

Nota: 5 estrelas

Sobre o autor: Nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em medicina pela USP, trabalhou por vinte anos no Hospital do Câncer. Foi voluntário na Casa de Detenção de São Paulo (Carandiru) por treze anos e hoje atende na Penitenciária Feminina da Capital. Seu livro Estação Carandiru (1999) ganhou os prêmios Jabuti de Não-Ficção e Livro do Ano. Nas ruas do Brás recebeu o Prêmio Novos Horizontes, da Bienal de Bolonha, e Revelação Infantil, da Bienal do Rio de Janeiro. É autor também de Macacos (Publifolha, 2000) e de Cabeça do cachorro (TerraBrasil, 2008), este último em parceria com o fotógrafo Araquém Alcântara.

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Carioca de nascimento e juiz-forana de todo o resto, Iracema Martins é jornalista por vocação, paixão e formação. Cresceu em uma casa cercada de livros, cultura, história e política, seus tópicos favoritos para conversas. Além de ser apaixonada por livros, assiste mais séries do que consegue acompanhar, não vive sem música e ama cinema.

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