Resenha: Passarinho – Crystal Chan

0
139

“Aprendi, naquele momento, que corações não usam palavras para falar, ao contrário do que dizem os filmes e as músicas. Acho que precisam de muito mais espaço”.

Sinopse Intrínseca: O avô de Joia parou de falar no dia em que matou o irmão dela. O menino se chamava John, e achava que podia voar. Subia e saltava do alto de qualquer coisa, e por isso ganhou do avô o apelido de Passarinho. Joia não teve a chance de conhecê-lo, pois Passarinho se jogou do penhasco bem no dia em que ela nasceu. Ainda assim, por muito tempo ela viveu à sombra de suas asas. Agora, aos doze anos, Joia mora em uma casa tomada por silêncio e segredos. Os pais da menina culpam o avô pela tragédia do passado, atribuem a ele a má sorte da família. Joia tem certeza de que nunca será tão amada quanto o irmão, até que ela conhece um garoto misterioso no alto de uma árvore. Um garoto que também se chama John. O avô está convencido de que esse novo amigo é um “duppy” — um espírito maldoso —, mas Joia sabe que isso não é verdade. E talvez em John esteja a chave para quebrar a maldição que recaiu sobre sua família desde que Passarinho morreu.

Opinião: Triste e melancólico do início ao fim, “Passarinho” (2014), estreia literária da norte-americana Crystal Chan, fala sobre família, luto, mágoa e perdão. Joia, protagonista da obra, nasceu no dia em que seu irmão mais velho, Passarinho, pulou do penhasco. Desde então, a garota de 12 anos vive a sombras da tragédia que transformou uma família feliz em um grupo de pessoas silenciosas, apenas habituadas as rotinas do dia-a-dia.

Com a chegada de um garoto misterioso chamado John, mesmo nome de Passarinho, a vida de Joia se transforma e o avô, desde então enclausurado e mudo, enxerga no novo amigo da neta uma maldição. A garota, sozinha e reclusa em seu própria mundo, pedras e com uma estranha atração pelo mesmo penhasco em que Passarinho tentou voar, vê no novo garoto um amigo, um porto seguro, alguém em quem ela pode confiar e se livrar de todo o peso que carrega nas costas.

Crystan Chan trabalha maravilhosamente bem em sua estreia, guiando o leitor pelos pensamentos inocentes de Joia, em sua busca constante para preencher o vazio de uma perda que ela, de fato, nunca teve, enquanto trata de temas recorrentes na literatura como luto e perdão. Como uma narrativa coerente e de fácil assimilação, “Passarinho” mistura a cultura jamaicana com a realidade norte-americana, e usa todo o misticismo, tão conhecido por nós, brasileiros, para justificar os atos e escolhas de cada personagem.

Joia é uma personagem complexa, cheia de camadas, mas encantadora a sua maneira. Pelos olhos da garota conseguimos perceber como palavras não ditas são mais poderosas que as que escorregam nas horas de raiva e rancor. Apesar de reprimida pela dor da família, Joia tem uma vivacidade ímpar, capaz de encantar e comover o leitor.

Apesar de profundamente triste, “Passarinho” não é uma obra pesada. Chan consegue com maestria nos mostrar a esperança por trás da dor, a vida renascendo aos poucos, em cada momento, em cada nova descoberta. Chan, principalmente, usa “Passarinho” para provar que até as piores coisas conseguem ser superadas e perdoadas.

Avaliação: 4 estrelas

Sobre o autor: Crystal Chan é filha de pai chinês e mãe de ascendência polonesa. Cresceu em meio a plantações de milho no Wisconsin e vem tentando encontrar seu lugar no mundo desde então. Com base em pesquisas e na própria experiência de ter sido educada em uma família multicultural, já publicou artigos em veículos como The Guardian, além de ministrar palestras pelos Estados Unidos. Em Chicago, onde vive atualmente, é possível encontrá-la passeando de bicicleta pela cidade e batendo papo com sua tartaruga de estimação. Passarinho é sua estreia literária.

Deixe uma resposta