Crítica: “Das coisas mais arrebatadoras que já li”: um chavão, com certeza; mas inevitável ao falar deste livro. “Fabián e o Caos” (2015) é uma surra que te deixa feliz em apanhar. É um romance sobre mais do que a amizade improvável entre um pianista gay e um “atleta” mulherengo: é a história da Revolução Cubana a partir de quem não pegou em armas.

Pedro Juan, então, é este cara impulsivo, que atravessa a vida com a força de quem não sabe para onde vai mas segue em frente. Ele sente um profundo horror diante da ideia de casar, ter filhos e ser proletário para o resto da vida, produzindo como uma máquina em respeito à nação e ao ideal. Ele é viciado em sexo e define-se enquanto alguém com excesso de testosterona, um impulso interno que o faz experimentar tudo, bisbilhotar tudo e conhecer tudo, inconscientemente sempre do contra e fora do sistema. Fabián, por outro lado, é mimado, inseguro e gay – o que, na realidade cubana, significa um forte antagonismo à heterossexualidade. Excelente e precoce pianista, é apaixonado por música clássica e sonha ingressar no corpo de uma grande orquestra, compôr sinfonias.

De início, o livro teve de vencer minha resistência. O Pedro Juan Gutiérrez assume uma voz limítrofe, politicamente incorreta, que pode incomodar bastante em alguns momentos. Eu me senti especialmente desconfortável com as descrições de mulheres, principalmente das negras e/ou prostitutas. De certa forma, somos avisados, porque a contracapa do livro já traz um excerto do Tribuna descrevendo o autor como “[uma] espécie de Bukowski caribenho ou Henry Miller de Havana”. De qualquer forma, a narrativa me conquistou aos poucos por conta de sua escrita deliciosamente fluida, como se alguém estivesse sentado comigo para contar os inúmeros casos. A construção de personagens também é bastante aprofundada e é possível reconhecer as vozes, em particular a do Pedro Juan (personagem) que narra em primeira pessoa dois dos cinco capítulos.

Minha principal ressalva com relação à obra diz respeito a como o regime comunista é abordado. Sabemos que a ilha tornou-se, infelizmente, um cabo de guerra discursivo, atravessado tanto pelo ódio absoluto quanto pela admiração acrítica. Entre os “vai pra Cuba” e os “vou mesmo” existe o reconhecimento dos avanços na educação, com erradicação do analfabetismo, por exemplo, e a identificação de que o governo de Fidel em pouco respeitou a diversidade – durante “Fabián”, percebemos que ser gay na ilha, a menos que você conseguisse esconder, podia significar uma vida de bastante abuso. Gutiérrez, no entanto, apresenta-nos apenas a pobreza e a arbitrariedade – sendo que a primeira em muito foi consequência do embargo econômico -, o que me incomodou um pouco. Vale a pena, então, seguir a narrativa desconfiando do que o autor lhe apresenta, por mais visceral e forte que seja a escrita, por mais convincente.

A voz narrativa é sedutora, envolvente, e a história é fortíssima. Os dois amigos irão encontrar-se durante a vida, identificar as mudanças, compartilhar os medos e, de maneiras diversas, enfrentar a depressão. Guardando as diferenças, lembrou-me um pouco o “Diário da Queda” (2013), do Michel Laub, o primeiro romance de uma trilogia que pretende pensar como as grandes tragédias apresentam consequências na vida ordinária de pessoas que não aparecem nas páginas de História. Falo em guardar as diferenças por que, como já disse, não acredito que o regime cubano tenha significado apenas desrespeito à subjetividade, mas “Fabián e o Caos” acompanha a interferência da mudança política na vida de duas pessoas que, por razões distintas, não conseguem se ajustar. Enquanto lia, era inevitável traçar comparações com nosso modo de produção capitalista, e percebi que, pelo menos no que se refere ao exemplo cubano, o que há de invasivo nos dois modelos corresponde à impossibilidade de não produzir riqueza. Este não-existir é impensável. Há diferenças óbvias na forma como os recursos serão distribuídos, mas não existe o não-lugar. Levante-se e vá ao trabalho. Fim. Nos dois modelos existem forças demandando que você produza: para o capitalismo você é uma cifra e, para o comunismo, você é parte de um projeto, de um ideal.

“Fabián e o Caos”, portanto, é uma leitura fortíssima, da qual é impossível sair incólume. É absolutamente catártico acompanhar as angústias dos dois personagens, suas tormentas e inquietações, especialmente quando nos aproximamos do final avassalador, cortante e tristíssimo. Difícil falar desta experiência que tanto me marcou sem abarrotar o texto de superlativos, então concluo esta resenha apenas recomendando que leiam o livro – com ressalvas, certamente -, pois tenho certeza que, no mínimo, é uma obra que irá incitar reflexões interessantes a respeito do que significamos no mundo e os limites de nosso poder sobre nossa própria existência.

Avaliação: 5 estrelas.

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Soteropolitano viciado em séries, música pop e, no que diz respeito a livros, leitor assíduo de literatura contemporânea – especialmente a brasileira. Alguém que não dispensa os clássicos, porém jamais deixará passar um lançamento de Elvira Vigna ou Daniel Galera. Estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes na Universidade Federal da Bahia (com ênfase nos estudos literários).

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