Crítica: Paula Fábrio, mestre em Literatura pela USP, é uma escritora paulistana nascida em 1970. Seu primeiro romance, “Desnorteio” (2012), foi condecorado o Melhor Livro do Ano na categoria estreante pelo Prêmio São Paulo de Literatura. Apesar das poucas obras publicadas, portanto, ela já conta com uma considerável atenção no cenário da literatura brasileira contemporânea.

A história de “Um Dia Toparei Comigo” (2015) segue a trajetória de Isabel (narradora observadora) e Virginia, duas companheiras que vivem juntas no Edifício Richard Wagner, cidade de São Paulo. Ambas vivem um cotidiano sofrido: a primeira encarregando-se de questões domésticas e da dissertação de mestrado que está a escrever, e a segunda trabalhando como secretária numa baia apertadíssima. 11 meses do ano precisam decorrer para que, finalmente, elas possam viajar nas férias – esta experiência na qual, por certo, nos demovemos de quem somos. Durante o livro, acompanhamos uma viagem para a Espanha na qual haverá, num primeiro momento, uma ruptura significativa na relação das duas: Isabel irá se apaixonar por Luis. E mais não digo.

Como aponta o prefácio de Micheliny Verunsck, estamos diante de uma contemporaneidade em dobras, de tempos sobrepostos. Os capítulos curtos, como pequenas crônicas de viagem, são atravessados por uma cronologia fragmentada. Neste emaranhado de memória, sonho e projeção, acompanhamos uma mulher em confronto com a narrativa de si.

Ao costurar as malhas do tempo e do texto, a protagonista nos confidencia a pretensão de pertencer a alguma coisa – ainda que apenas ao edifício Richard Wagner mesmo, onde as velhinhas no elevador julgam o número de laranjas que comprou na feira. Talvez como consequência desse olhar para si, durante sua estadia na Espanha ela detém especial atenção sobre os estrangeiros: os turistas com suas câmeras em flash, os imigrantes no Ocupa ou os argentinos que preparam parillada de legumes. Neste movimento sobre o outro, ainda que o Harry de “O Lobo da Estepe”, Isabel empreende uma análise de sua trajetória e de como é possível transformar os limões em limonada para sentir-se parte de algo.

O texto é direto, de frases curtas, o que torna a leitura bastante agradável na maior parte do tempo. No entanto, o livro perde pontos ao não apresentar uma trama com mais força dramática. Lá pela página 93, a narrativa toma um rumo através do qual as motivações dos personagens não ficam muito evidentes, dificultando a nossa conexão com o que é contado. A história segue sempre no mesmo tom, os possíveis conflitos não crescem, e o término, portanto, mostra-se bastante enfadonho.

“Um Dia Toparei Comigo” é um bom livro, uma leitura rápida, que apresenta bons momentos se o encaramos como uma compilação de crônicas. Não tem uma liga que sustente de maneira muito clara a narrativa como um todo, mas é bem escrito e demonstra uma certa potência ao circular por temáticas interessantes. Recomendo, apesar das ressalvas.

Avaliação: 3 estrelas.

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Soteropolitano viciado em séries, música pop e, no que diz respeito a livros, leitor assíduo de literatura contemporânea – especialmente a brasileira. Alguém que não dispensa os clássicos, porém jamais deixará passar um lançamento de Elvira Vigna ou Daniel Galera. Estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes na Universidade Federal da Bahia (com ênfase nos estudos literários).

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