Crítica: Ricardo Lísias é um escritor paulistano vencedor do prêmio APCA por seu romance “O Céu dos Suicidas” (2012) e selecionado pela Granta como um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros. Sua série de e-books “Delegado Tobias” (2014), publicada pela e-galaxia, chegou a provocar instauração de inquérito policial por falsificação de documento – ainda que numa obra de ficção, diga-se de passagem. Tido por grande parte do público e da imprensa como um autor polêmico ou controverso, definitivamente ele desponta entre os nomes mais comentados da literatura nacional.

Em “A Vista Particular” (2016), acompanhamos a trajetória peculiar de José de Arariboia, um pacato artista plástico, filho de banqueiro e morador de Copacabana que, a partir da execução de determinada obra, percebe sua vida completamente transformada. Arariboia é agenciado pela marchand Marina dalla Donatella, importante nome nas artes plásticas brasileiras. No entanto, após a polêmica criação, descobre outra maneira de confeccionar e expor seu trabalho: inusitadamente, junta-se a Biribó, chefe do tráfico no morro Pavão-Pavãozinho, também na zona sul carioca.

A história, que de início parece perfeitamente verossímil, vai tomando contornos cada vez mais absurdos e, infelizmente, conectados de modo profundo com toda nossa instabilidade política e social. O jornalista Merval Pereira, as Olimpíadas do ano passado e a origem escusa de algumas obras do MASP despontam no livro, por exemplo. Mas a narrativa é contemporânea não apenas pela postura crítica que assume e provoca, como também pelo trabalho empreendido com a linguagem.

Leitor de Virginia Woolf, James Joyce e Franz Kafka, Ricardo Lísias revela tanto na obra quanto nas aparições públicas, que é um autor interessado em pensar justamente os limites e as potências da língua. “A Vista Particular”, sobretudo por abordar artistas que lidam com o plástico e o visual, utiliza ironicamente a restrição da palavra escrita. O narrador está continuamente jogando com as expectativas do leitor e revelando os “bastidores” de elaboração do texto.

Este é um livro absolutamente necessário a nosso tempo, e atrevo-me a dizer que Lísias produziu uma sátira do Brasil contemporâneo. O texto vai apontar para temas como a superexposição em rede, a espetacularização da miséria e, principalmente, para as prioridades de nosso projeto político. Leitura rápida, irônica, divertida e mais do que recomendada.

Avaliação: 5 estrelas.

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Soteropolitano viciado em séries, música pop e, no que diz respeito a livros, leitor assíduo de literatura contemporânea – especialmente a brasileira. Alguém que não dispensa os clássicos, porém jamais deixará passar um lançamento de Elvira Vigna ou Daniel Galera. Estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes na Universidade Federal da Bahia (com ênfase nos estudos literários).

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