Crítica: Valter Hugo Mãe é provavelmente o escritor lusitano mais celebrado dos últimos anos. Nascido na Angola e radicado em Portugal, sua obra já foi traduzida para diversas línguas, obtendo especial repercussão em países como Alemanha, Espanha, França e Croácia. Seus romances “o remorso de baltazar serapião” (2006) e “o apocalipse dos trabalhadores” (2008) lhe renderam prêmios como o José Saramago e o Portugal Telecom.

Em seu penúltimo trabalho, “A desumanização” (2013), deslocou-se de Portugal para acompanhar a narrativa de uma menina islandesa que, ao perder sua irmã gêmea, conta-nos o que lhe restou – seja a poesia do pai ou a amizade inesperada com um vizinho. Neste “Homens imprudentemente poéticos”, por sua vez, Valter detém o olhar sobre um vilarejo japonês ao pé da floresta dos suicidas.

Seguimos, portanto, a rixa de dois vizinhos: Itaro e Saburo. O primeiro é um artesão que, desde criança, apresenta um dom um tanto peculiar: ao ver um animal morrer, consegue vislumbrar o futuro. Desta maneira previu que sua irmã Matsu nasceria cega, e mais tarde avisaria a Saburo que sua amada esposa seria morta por um bicho perigoso. Na tentativa apaixonada de amansar a desconhecida fera, o oleiro planta um jardim belíssimo ao pé da montanha – modificando, no ensejo, o rumo de alguns suicidas.

A escrita de Valter Hugo Mãe é bastante onírica, fluida. Você percebe um ritmo, um trabalho artesanal, como se estivéssemos diante de palavras talhadas em papel. Quando recitamos um texto do autor, parece-nos a leitura de um poema. Neste sentido, cabe dizer que não existe voz mais apropriada para contar uma história de tão poéticos personagens.

O romance é lírico na medida em que os sentimentos de todos misturam-se às árvores, às flores, aos rios, aos pássaros e aos barulhos da floresta. Tudo parece amalgamar-se num corpo único que, nem por isso, apresenta menos conflitos – a tensão entre Itaro e Saburo, por exemplo, cresce bastante durante o romance.

Valter é um artista que, mesmo ao revisitar o Japão de 200 anos atrás, convoca-nos a pensar o agora. Ele deixa evidente, não apenas em sua obra, que preserva um compromisso ético, de cuidado com o outro. Assim, “Homens imprudentemente poéticos” parece apontar para a potência do afeto, para a força de uma ternura que, por vezes, pode não corresponder às nossas idealizações.

Portanto, com todo merecimento, Valter é um dos autores mais ilustres de nossa língua portuguesa. Suas narrativas conduzem o leitor a um espaço fantasioso de percepção da história, a um estado de sonho – como se nossas aspirações pudessem queimar toda uma floresta, restando apenas a rocha da montanha. Eu recomendo muitíssimo e considero “Homens imprudentemente poéticos” das experiências mais arrebatadoras que já tive em literatura. Leiam!

Avaliação: 5 estrelas.

Compartilhar
Artigo anteriorDarkSide anuncia edição de luxo de “Frankenstein”, de Mary Shelley
Próximo artigoJá conhece o Beco Club? Corre aqui que a gente te conta tudo!
Soteropolitano viciado em séries, música pop e, no que diz respeito a livros, leitor assíduo de literatura contemporânea – especialmente a brasileira. Alguém que não dispensa os clássicos, porém jamais deixará passar um lançamento de Elvira Vigna ou Daniel Galera. Estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes na Universidade Federal da Bahia (com ênfase nos estudos literários).

2 COMENTÁRIOS

  1. Ótima resenha.
    Li recentemente essa obra e com certeza ela vale cinco estrelas. É uma narrativa poética que precisa ser lida e digerida lentamente.
    Parabéns pelo blog, visitarei outras vezes.
    Bjos

Deixe uma resposta