Crítica: “Cordilheira”, lançamento de 2008 de Daniel Galera, é uma das obras que compõem a coleção Amores Expressos. O projeto da Companhia das Letras enviou alguns escritores para diferentes cidades do mundo com o compromisso de escrever um livro e, à vista disso, o título de Galera se passa em Buenos Aires. A coletânea também conta com “Estive em Lisboa e Lembrei de Você”, de Luiz Ruffato, que ganhou adaptação cinematográfica.

Somos lançados à narrativa através da voz de Anita, uma escritora que vive em São Paulo e é bastante celebrada por crítica e público pelo lançamento de seu único romance. Ela é órfã de mãe, perdeu o pai num acidente, está cercada por pessoas um tanto problemáticas e namora Danilo, um cara de quem não sabemos muita coisa. Todos ao seu redor depositam sobre ela não só a expectativa de valer-se da fama literária como, também, a de escrever um segundo romance. No entanto ela atravessa um absoluto desinteresse por sua vida de escritora e está obcecada com a ideia de engravidar. Como Danilo não pretende ser pai no momento e suas amigas não apoiam a decisão de ser mãe aos 27 anos, ela aproveita o lançamento da tradução argentina de seu livro para partir a Buenos Aires.

Na capital argentina, Anita conhece um escritor de comportamento bem estranho chamado José Holden, e inclusive é apresentada a seus amigos igualmente excêntricos. A partir de tal momento, o livro tece uma reflexão sobre os limites entre vida e arte e a possibilidade de serem sobrepostas.

O primeiro capítulo, que para mim foi o mais interessante, ambienta Anita em suas relações antes de deixar São Paulo. Galera fez um trabalho primoroso em nos apresentar o estado de entorpecimento dos personagens, soterrados pelas projeções alheias e com pouca convicção de quais são suas verdadeiras necessidades. Já em Buenos Aires, a narradora é inserida numa trama que, para o leitor, é tão absurda quanto previsível. O romance, apesar de curto, se arrasta e demora a dar informações que nos parecem mais do que óbvias, tornando-se bem desinteressante: preferia ter ficado no Brasil.

Daniel Galera, num depoimento gravado para o Conexões Itaú Cultural, nos conta que uma de suas motivações a escrever é traduzir em literatura o diagnóstico íntimo que faz de sua geração, interessando-se por tramas mais contemporâneas. Este seu interesse me agrada bastante, especialmente em “Meia Noite e Vinte”. Mas, infelizmente, “Cordilheira” não me convenceu.

O romance é bem escrito, bem delineado, os diálogos são ótimos, mas custa a chegar a seu desfecho. Ainda assim, não deixo de recomendar a quem se interessa por literatura contemporânea e suas preocupações: ele é pontuado por verdadeiros bons momentos e nos convoca a pensar sobre as narrativas que criamos para contar quem somos – especialmente a nós mesmos.

Avaliação: 2 estrelas.

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Soteropolitano viciado em séries, música pop e, no que diz respeito a livros, leitor assíduo de literatura contemporânea – especialmente a brasileira. Alguém que não dispensa os clássicos, porém jamais deixará passar um lançamento de Elvira Vigna ou Daniel Galera. Estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes na Universidade Federal da Bahia (com ênfase nos estudos literários).

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