Resenha: Série Napolitana – Elena Ferrante

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Crítica: Elena Ferrante, talvez o pseudônimo literário mais comentado do séc. XXI, é uma escritora italiana que publica há mais de 20 anos. Como a maioria de vocês deve saber, ela nunca revelou o rosto e as poucas entrevistas que concedeu aconteceram por e-mail. Investigações recentes chegaram a revelar sua suposta identidade (num episódio grosseiro de invasão de privacidade), mas, de fato, quando lemos sua obra, somos impelidos a concordar com sua famosa declaração: já fez tudo o que podia ter feito por seus livros escrevendo-os.

Sua obra mais recente é a Tetralogia Napolitana, formada por L’amica geniale (A Amiga Genial), Storia del nuovo cognome (História do Novo Sobrenome), Storia di chi fugge e di chi resta (História de Quem Foge e de Quem Fica) e Storia della bambina perdutta, ainda sem tradução brasileira, mas que tem História da Menina Perdida como título em Portugal. A série, de premissa simples, acompanha a amizade e a formação de Elena Greco (narradora da história) e Raffaella Cerullo, Lenu e Lila respectivamente, num percurso que tem seu início em meados dos anos 50. Ambas vivem num bairro violento da periferia de Nápoles e, enquanto desenvolvem uma estranha e talvez obsessiva amizade, percebem aos poucos a cartografia dos abusos na vizinhança. No primeiro volume, por exemplo, que acompanha a infância, apesar de a história ser narrada por uma Elena já velha que revisita o seu passado, os acontecimentos nos chegam de maneira nebulosa, através de um filtro infantil. Você apenas supõe que existe um agiota perigosíssimo no bairro ou que uma menina foi estuprada, por exemplo.

A escrita de Elena é bem “seca”, direta, sem rodeios ou metáforas arrebatadoras. A força da história reside na brutalidade dos acontecimentos, na maneira folhetinesca como é contada (através de capítulos curtos, despertando curiosidade e deixando a leitura bem mais fluida).

Conforme crescem, Lenu e Lila se distanciam, especialmente, por conta do acesso ao estudo. Enquanto a primeira alcança níveis cada vez mais avançados e, gradativamente, circula por outras regiões (inclusive simbólicas) de Nápoles, a segunda permanece confinada à lógica de violência do bairro. Quanto mais avançamos na trama, a hostilidade torna-se um dado cada vez mais presente, seja nas competições masculinas, na violência doméstica, nas relações patrão-empregado e até mesmo entre as protagonistas. O início do segundo volume é um soco no estômago de quem permanece acostumado às percepções que Lenu e Lila têm do bairro quando crianças.

Ferrante constrói um “novelão” que nos entretém na mesma medida em que nos convoca a refletir sobre questões bastante pertinentes: a condição feminina num cenário de vulnerabilidade econômica, o poder muitas vezes nefasto do dinheiro, a violência generalizada entre direita e esquerda, o crescimento do fascismo, enfim… A série nos apresenta a uma Itália (e a uma Europa) que vivia um momento de tensão e instabilidade política perfeitamente capaz de conectar a nós, leitores brasileiros, com o momento presente de nosso país.

Fica, então, esta indicação que, pra mim, é imperdível. Se eu tiver de apontar alguma ressalva, seria o final abrupto do primeiro livro, porque me recuso a chamar aquilo de cliffhanger. Mas este problema é perfeitamente reparado nos dois volumes seguintes, com arcos muito melhor delineados. Enfim: leiam Ferrante e voltem para compartilhar suas impressões.

Avaliação: 5 estrelas.

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Soteropolitano viciado em séries, música pop e, no que diz respeito a livros, leitor assíduo de literatura contemporânea – especialmente a brasileira. Alguém que não dispensa os clássicos, porém jamais deixará passar um lançamento de Elvira Vigna ou Daniel Galera. Estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Artes na Universidade Federal da Bahia (com ênfase nos estudos literários).

1 COMENTÁRIO

  1. […] Como toda a literatura de Ferrante, este é um livro denso, que nos convoca a uma releitura e toca em temas desconfortáveis apesar de necessários. Leitura fluida por conta da escrita sem grandes arroubos metafóricos ou descrições excessivas, mas que exige um olhar atento. Recomendo muitíssimo e, quem tiver curiosidade em conhecer mais sobre o grande best seller da autora, a série napolitana, pode clicar aqui. […]

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