“Segredos são mentiras
Compartilhar é cuidar
Privacidade é roubo”

Sinopse Companhia das Letras: Encenado num futuro próximo indefinido, o engenhoso romance de Dave Eggers conta a história de Mae Holland, uma jovem profissional contratada para trabalhar na empresa de internet mais poderosa do mundo: O Círculo. Sediada num campus idílico na Califórnia, a companhia incorporou todas as empresas de tecnologia que conhecemos, conectando e-mail, mídias sociais, operações bancárias e sistemas de compras de cada usuário em um sistema operacional universal, que cria uma identidade on-line única em por consequência, uma nova era de civilidade e transparência. Mae mal pode acreditar na sorte de fazer parte de um lugar assim, mas o que começa como a trajetória entusiasmada da ambição e do idealismo de uma mulher logo se transforma em uma eletrizante trama de suspense que leva questões fundamentais sobre memória, história, privacidade, democracia e os limites do conhecimento humano.

Crítica: Largue o que você está fazendo e entre para um mundo onde tudo deve ser compartilhado. Faça parte do Círculo, uma empresa que resultou da fusão de gigantes do nosso mundo real como Google, Facebook, Snapchat, e adicione outra qualquer de sua preferência.

Dave Eggers constrói um romance distópico que nos faz se perguntar a todo momento se estamos lendo ficção ou um factual qualquer do nosso cotidiano. O Círculo acompanha a trajetória de Mae Holland e sua ascensão dentro da empresa, cobiçada por todos como o emprego dos empregos. Não pretendo entregar a vocês nessa resenha todas as situações vividas pela personagem, porque acredito que a surpresa da leitura, nesse caso, é fundamental, até para gerar a identificação com o mundo que está ao seu redor, mas vamos a alguns casos.

No Círculo são lançadas ferramentas para conectar cada vez mais as pessoas o que gera situações absurdas e hilárias como o chefe que chama a funcionária para pedir explicações do porque ela ter faltado a um evento organizado por um grupo virtual do qual ela participava. E o ápice da história que é a transparência: as pessoas são motivadas a compartilhar, através de mini filmadoras dependuradas no pescoço, todas (e são todas MESMO) as suas atividades durante o tempo em que estão acordadas. Você pode acompanhar a rotina de quem quiser acessando sua conta no Círculo.

A personagem Mae Holland se mostra extremamente ingênua e, em diversas passagens nos perguntamos se o livro não é didático ou infantil demais, mas acho que é justamente essa a intenção do autor. Ele deixa tudo bem claro, o que resulta num começo de livro bastante arrastado até que a história engrene e ganhe um ritmo alucinante. Depois disso, você não consegue mais largar até a última e aterradora página.

Considero O Círculo como uma leitura obrigatória. Através das situações vividas pela personagem central, os questionamentos colocados e as implicações das ações tomadas, somos levados a refletir sobre essa lavagem cerebral que o deslumbrante mundo da tecnologia e das redes sociais nos faz diariamente e que, sem sentir, acabamos absorvendo e em alguns casos virando ferrenhos defensores. Os três principais mandamentos defendidos pelo Círculo, e por todos os seus adeptos, de que “Segredos são mentiras, Compartilhar é cuidar, e Privacidade é roubo” mostram que o mundo da conexão em tempo real pode ser uma perigosa armadilha.

Em tempos em que somos levados, sem sentir, a compartilhar as nossas ações através de status, fotos, vídeos, áudios, a todo momento, ficam as perguntas: qual o limite para nossa exibição nas redes? Fazemos isso porque queremos ou porque somos “obrigados” a fazer, já que todo mundo faz? E nossos dados, para onde eles vão e o que pode ser feito com eles?

Ler o Círculo vai te deixar perturbado. Alguns episódios vão te fazer mal e outros vão gerar imediata identificação. E o final vai te fazer ficar uns bons momentos olhando para o livro e se perguntando se não estamos próximos demais de um futuro assim.

PS: O Círculo chega aos cinemas em 2017 numa adaptação estrelada por Emma Watson (Harry Potter) e Tom Hanks (Náufrago).

O Autor: Dave Eggers nasceu em 1970, em Boston. É jornalista, escritor e editor da Mc-Sweeney’s. Escreveu mais de dez livros de ficção, entre eles o famosíssimo Uma comovente obra de espantoso talento, além de não-ficção e roteiros.

Avaliação: 5 Estrelas

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Jornalista e aprendiz de serial killer. Assumidamente um bookaholic, é fã do mestre Stephen King e da literatura de horror e terror. Entre os gêneros e autores preferidos estão ficção científica, suspense, romance histórico, John Grisham, Robin Cook, Bernard Cornwell, Isaac Asimov, Philip K. Dick, Saramago, Vargas Llosa, e etc. infinitas…

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